quarta-feira, 21 de março de 2012

Maçã do amor

Um amor enraizado no coração é como fruta já saboreada, vocabulário já desgastado pelo uso. Um amor vindouro é como fruta verde, esperando amadurecimento; neologismo, inventando dicionário. Como a maçã que se observa mas não se come; como o te amo que se pensa mas não se diz. E ouso dizer que já tenho o gosto na ponta da língua: história com princípio, cama ao meio, dias sem fim. 




Para ouvir! 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Doce proibido


Engoli muitos desejos por você enquanto deitava a cabeça no travesseiro de sonhos. Imaginei nós dois gastando o mundo, rasgando ventos, na beira-mar e céu azuis. Criar milhões de imagens que não saíam do meu cérebro, minúsculo pra suportar tantas quimeras, era saturá-lo de paixão proibida. E sufocar tudo isso como alguém que tenta calar a boca com a mão ligeira, querendo engolir a chave que abriria toda a fantasia de debutante tímida. Deu certo, no meu universo onde tudo tem que dar certo, mas na realidade não. E hoje não me preocupo em saber o motivo desse não, meio amargo, meio salvador. No mais, consigo até rir das nossas conversas utópicas das madrugadas às esperanças, as quais adormeciam no meio do caminho ao palpável. Nada foi completo como desejávamos, nada foi tão belo como nas palavras, como no silêncio do beijo intenso de feriado. As entrelinhas disseram muito mais, juntas ao não-saber compositor de uma história de poucos capítulos, gostosa de ser lida, mesmo depois de algumas primaveras. Teu jeito largado me fez enxergar o homem mais culto do mundo, teu vocabulário desafiou minhas aulas de português, teu sorriso me lembrava sempre uma criança que acaba de ganhar chocolate. E sem perceber, você deixou minhas palavras incoerentes, transformou minha razão em risco, e me soltou no labirinto das emoções para que me perdesse e não voltasse tão cedo. Estar te escrevendo agora é sinal de que consegui voltar sim, pois se você não tinha essa intenção, eu tinha. Sacudi a poeira que você me depositou, o vendaval finalmente foi embora. Depois do desalinhamento causado por esse vento contrário, meu mundo voltou a girar dentro do tempo que voa pra melhor. E se me lembro de você é só assim, como um tropeço nas antigas paixões. Talvez um amor fora de época... Melhor do que ter prendido a respiração ontem, é expirar naturalmente hoje. Melhor do que relembrar com a cabeça, é esquecer com o coração.
"Aos olhos dele
Não acredito em nada. 
As minhas crenças voaram 
Como voa a pomba mansa
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança."

(Florbela Espanca)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Que explique a minha paz

Eu só queria um pouco mais. Por isso, fechei as portas do superficial e abri as janelas da intensidade. 


Os dias me consomem aos poucos, como a fumaça do cigarro que confunde a poeira solar em fim de tarde, esvaindo para o nada. Meus passos lentos entregaram todo o meu torpor de conquistar um novo alguém, de começar a ter as milhões de emoções, só que partindo do zero. Ouvinte de propostas indecentes e superficiais, me esqueço alheia às mesmas, saltando indolente com destino ao futuro do meu coração elegante e profundo. Não se podia esperar muito de quem já cansou de viver metades de tempo, vestígios de companhias e restos de amor. Sim, precisei mendigar por um mínimo de atenção e até vestir sorrisos fáceis para perceber que estas nunca foram estratégias boas de agarrar alguém para si. Aderir à ilusão de posse eterna e vulgar muito menos. E mesmo reivindicando meus direitos de sentir a dois, mesmo sabendo que o singelo é também robusto, e mesmo tratando de coisas destratantes, eu decidi por segurar a liberdade na mão e ser passiva de outras atenções, guardando um pouco da minha tão ingênua e fosca. Escondi a vidente que adorava prever errado e fechei os olhos para as expectativas cinzas, as quais encobriam minha visão de algo melhor. Acho que caiu bem em mim esse novo colete salva-amor, afinal, meu possível resgate não implica em esperas exaustivas, nem na ausência total de sentimento. Já-não-mais. O amor sempre fez parte de mim, como um membro que se amputado, faria falta e inibiria o movimento mais trivial. Ele é meu braço direito, o combustível que me move no mundo, meu perispírito em carne e osso. Portanto, renunciar das esmolas obtidas com suor amargo, não há de ser tradução da vontade de amar doce, nula, mas sim do desejo de uma história acre, viva. E com essa evasão pra dentro de mim, enxergo o quanto o sentimento mais profundo e vermelho me habita, inexplorado ainda porém belo. Conhecer o lado que gritava calado, implorando vez para desistir dos amores rasos, foi dissipar a calma até então inexistente e ter como resposta, o repouso no silêncio. 


Não há recusa do raso que não signifique um início de paz profunda.


ps: título referente à música "Casa pré-fabricada" na composição de Marcelo Camelo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Mova-me, mov-ame

Eu queria que algo agitasse. No meu cubículo chamado coração, na minha mente chamada mundo. Para que esquente, proteja, cuide de mim. Ando precisando de muitos afetos que estão perdidos pelo ar, afogados pelo tempo afora. Necessito que alguém abra minha cápsula e mexa e decifre e descubra. Para que eu saia e só volte em instantes eternos, quem sabe. O absurdo monótono não pode adentrar quem já não se move por dentro; quem ensaia gestos e espera palavras. Minhas noites tem se acordado sem me deixarem dormir, e o dia me adormece por horas transbordadas. Leio e assisto, mas daquilo que preciso, os versos melancólicos do poema, nem a luz da televisão me trazem. O calor não convida o frio que está aqui em pleno verão, a retirar-se pra nunca mais. Tudo continua absurdamente parado como um relógio público, Pessoa que o diga... Por isso vou fazer poesia com o nada que me para. E tentar mexer o tudo que me move.


(...)



"esse coração oculto pulsando no meio da noite (...), combatente clandestino aliado da classe operária, meu coração de menino."
(Ferreira Gullar)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Parece bolero

O coração sempre irá buscar refúgio nos olhos de quem um dia o teve na mão. E não há nada que se possa fazer a não ser respirar fundo e dobrar a esquina em busca do novo que tanto se prometeu. Mas lá estava meu corpo me desobedecendo de novo e cá estou eu a te escrever depois de tanto tempo. A vontade gritando feito bicho preso no quintal, toda a distância tranformada em desejo súbito de uma puritana. Nem sempre os caminhos são precisos e os sinuosos passos são por acaso, e acho que por isso te encontrei. Reencontrei uma pequena morada em mim, que desconhecia até o momento de te abraçar com força. Meio esperto, meio ingênuo. Momento de fingir não estarmos conectados um  ao outro. Tudo mentira de quem resiste às reticências de uma história. Na verdade, eu percebi quando sua boca travava para expelir o que seus olhos denunciavam. O som do mar nos confundiu mais uma vez e a voz do tempo cantou. As coisas mudaram mesmo, mas alguma coisa boa permaneceu. O pequeno abrigo onde me encostava ainda estava no mesmo lugar, mesmo que desgastado, mesmo que carapuçado da razão que nos precisa. Fomos pegos em flagrante praticando um crime involuntário, o crime do querer sem fim. E não me importarei depois dessas longas datas, se não beber nos teus olhos de mel mais uma vez. Não tomarei  lugar de quem hoje tem assento ocupado, nem farei escândalo para te ter de volta. Apenas deitarei no presente, desembrulhando o passado remoto para que eu não me esqueça do que construímos. Não será tentativa frustrada de quem ainda ama, mas uma dádiva de guardar na memória da vida o que hoje é afeto. Acontecerá de vez em quando, sem promessas e lástimas. Pois é sempre desconcertante rever o grande amor, Chico sabia disso.


"Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
(...)
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados..."

(Anos dourados - Chico Buarque)

Poetisa da alma


Sempre há um alvo a ser atirado com perfeição, depois de tantos erros, incansáveis fragmentos de vida. Não me reciclo sem antes me consultar, me pesar além da massa corporal, na balança do que me faz bem. Acabo jogando tanta porcaria fora que me sinto leve feito uma pena. Meio que uma faxina sentimental, emocional, espiritual. A tristeza nunca foi de perdurar, acho que não sou um bom lugar para sua pousada. Vejo a vida tão depressa e bela que o realce que tenho sempre tentado dar a ela, não é nada doce para os sentimentos negativos. O sorriso a tiracolo me carrega pelas escuridões e claridades que se fazem à minha frente, mas que nunca me fazem desistir dos lábios vermelhos e ousados.

Quando se para de dar importância ao desprezível, o que o próprio tempo ensina (aprende quem quer), as coisas boas batem à porta, e a espera de milagres lapidam-se em ações, práticas reais e menos cruéis do que a espera. Felicidade nunca foi utopia. Talvez sua sede interminável seja nada menos que uma barreira posta diante dos olhos quebradiços, pois ela está na ponta do nariz, na ponta da língua, no aqui e no agora. Acho que simplesmente cansei de fazer minha vida um divã de analista em busca de respostas ilógicas, quando na verdade o que eu mais aspirava estava tão próximo, absurdamente próximo.

É tudo tão espetacular aos olhos da alma e não exito. Prefiro ser poetisa da alma e não me contento com o que o mundo me oferece. Tudo acontece aqui dentro.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Obrigada, 2011




Eu não coube mais nas roupas que antes folgavam em meu corpo. Engordei, emagreci, comi tudo que tinha vontade e não pratiquei exercícios. Li mais o que queria, fiz poesia com minha vida, criei coragem pra falar alto e fazer a arte de ensinar com as mãos de artista inexperiente. Tentei violão, desisti antes de começar a dança e o francês, e concluí o curso de inglês. Optei pelo o português. Eu me surpreendi com meu timbre, com minha paciência em esperar o momento ideal para falar poucas verdades latejantes, apesar de ouvir muitas mentiras feridas. Ouvi meu coração também, baixinho mas pulsante e forte, que me submeteu a gestos loucos e conscientes. 


Aprendi a sorrir em momentos inapropriados e a zombar da hipocrisia que insistia em me rodear. Aprendi também a dizer "não" quando preciso, mas ajudei a quem precisava sem ouvir um "sim" para isso. Acho que também fiquei mais independente, apesar de não ter comprado um apartamento nem ter saído de casa, mas por ter dado asas a liberdade que minha mente desejava pra voar alto, além das montanhas, além dos muros palpáveis. Continuei sem seguir o que a moda ditava e a sempre errar nas combinações, que variavam junto com meu humor camaleão. Talvez tenha investido mais na cabeça do que no corpo (gosto de ver meu dinheiro valer a pena, ao invés de sumir a cada estação). 


E falando em estação, sofri invernos e tremi de frio quando o que eu mais queria era um cobertor. Fiz de mim minha própria companhia por várias noites sem sono e sem lágrimas. Já meu verão foi só risos, calmaria do mar e revelação: me surpreendeu com um sol chamado amizade, raiou ainda mais a família pequena e que me foi permitida escolher. Nasceram estrias no meu corpo e o efeito sanfona atuou também no emocional. Alguns entraram e saíram de mim deixando marcas, umas mais claras, outras mais escuras. Abri os olhos para as pessoas ao meu redor e consegui ver a alma, segui o pequeno príncipe. Enquanto isso, muitos cegaram para as carapuças alheias de bom caráter (sempre preferi o mau caráter não disfarçado e não é a toa). Senti-me no asteróide B-612. 


Conheci a ingenuidade mas também o monstro oculto que acorda de repente, assustando em silêncio. Resmunguei, chorei, me decepcionei com o quase óbvio, me senti criança. Mas pus em prática a maturidade construída, cedendo o perdão e a tolerância. Saí do berço da apatia, da cegueira e do conforto ilusório. Sofri do mal da omissão e dos chás de sumiços sentindo uma dor fina e cortante. Tomei remédios de pseudo-alívio, mas acabei caindo da nuvem mentirosa que me aconchegava lá em cima. Só machucou no começo, hoje em dia já sei como assoprá-las mesmo sabendo que ainda irei me arrebentar e reaprender. 


Com tudo isso, fui levada a acreditar que todo mundo tem dois lados: ninguém pode ser totalmente bom ou totalmente mau. Expandi, aceitei e como prova ganhei irmãos, aqueles que enfeitam minhas fotos e tem pacto com meus gostos, sintonias sem explicação. E como as melhores coisas da vida, não necessitam de explicação. Já outros sumiram no meio da viagem: eram só passageiros. Dei adeus. Aprendi a sumir quando não havia mais saída, e a entrar no mundo das pessoas a fim de ser inteira e amiga. Abominei metades e exigi atenção. Nunca pude fugir da intensidade que me vive, lá dentro, bem mais forte do que eu. 


Acho que falei mais o que sentia e discuti com os que se achavam politicamente corretos em tudo. Aprendi a odiar e desconfiar de quem agrada a todos e tive bom motivos pra isso. Desmistifiquei supostas verdades, mas sonhei bem mais. Nunca fui a favor dos cem por cento racionais, pois onde estaria a graça da vida se não nos sonhos? Enfrentei gente que queria derrubar os meus e debochar da minha caminhada em busca deles. Desconsiderei, afinal não há troco mais ousado do que a indiferença. Infelizmente ser você mesmo gera guerra em uma sociedade que adora fazer sentido. 


Fui também racional quando o momento pedia, mas não fui quando a questão era unir dois corpos. Eu me apaixonei desesperadamente, tremi pernas e gaguejei. Aprendi a ler gestos e usei minhas armas. Não todas. Acho que fui importante em algum momento e roubei alguns pensamentos com minha imagem. Eu quase me entreguei, quase caí feio, se não fosse algo indefinido (uns nomeiam de "destino", outros de "coincidência"), no meu mundo onde tudo tem que dar certo, que impedisse. Olhei pra uma boca, ele me sorriu com um olhar. Eu me encantei, depois desencantei, cantei e reencantei. Gostei de ter vivido cada amor platônico, cada paixão desenfreada, cada paquera não correspondida. Gostei mais ainda de ter me deixado quatro pneus caidinhos por mim mesma, ter visto o amor-próprio transbordar. 


E de verdade, o melhor de tudo foi ter acordado sempre com pensamentos matinais desapaixonados, e morrer de amor no final do dia. Foi sorrir com minhas quedas e a chorar com minhas graças alcançadas. Foi ter vontade de continuar sempre depois das topadas e ter me conhecido um pouco melhor, na velha luta infindável do auto-descobrimento. Foi ter subido mais um degrau da longa escada que habita esse mundo, cheio de dores e amores. Foi ter dois dias para que o ano se acabe, e conseguir dizer satisfeita: O fechamento desse ciclo está permitido. Bem-vindo 2012!