Mostrando postagens com marcador Clarice Lispector. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clarice Lispector. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de maio de 2013

O encontro

Pego emprestada a alma trêmula de Frida. Intensa, dolorida, um ser azul que flutua em um mundo cinza. Não vai deixar de ser azul por nada. Só que no meu quarto, no meu mundo que não é o México. Depois me sinto como uma personagem esquisita de Clarice. Daquelas que possuem felicidades clandestinas, repentinas, mas que voltam para o seu canto cativo banhado de devaneios. Tocam-se apenas com um animal de zoológico. E aí, acabo também me espelhando numa personagem alva de García Márquez, muito amada, tímida, mas com olhos misteriosos e sedentos por coisas invisíveis, amores distantes. Sempre a mesma ao longo dos anos, só que diferente a cada dia. Logo após, me sinto eu, me bato de frente. É preciso. A verdade fica hesitando em se mostrar, mas de repente a flor no meio do asfalto de Drummond brota, o eu lírico feminino de Chico desatina, o clamor de Ruiz por algum sentimento que sirva alcança o ouvido. É como se tudo ao redor viesse me buscar para um encontro eu - eu. Como um convite para um filme onde a protagonista revela seus grandes mistérios em ações pequenas. Para uma terapia de auto-conhecimento promíscuo com fala desenfreada. Ou para um encontro num lavatório de roupa suja, ou melhor, de palavra suja, onde tudo será devidamente limpo, exposto, guardado ou usado. Jogado fora também. É como se eu me assistisse no divã, derramando meus problemas para um analista tarado que me olha me tirando a roupa pouco a pouco, saboreando cada curva de conflito. Mas ele só quer me levar a descobrir o que estou fazendo ali. Ele não é tarado, talvez minha consciência seja. Tarada por uma verdade sempre intangível que me espatifa por inteira, se fazendo em pedaços. Porque a verdade é sempre uma incógnita que me veste de personagens alheios, mas me desnuda como o analista chamado tempo. Enquanto isso, vou vivendo de meias-verdades e completas mentiras. Numa casa azul de Frida, no fluxo de consciência de Clarice e na leveza polida de García Márquez.





quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Urgência

É muito bonito sair do casulo e aprender a voar. Asas espaçadas, ares novos e cava vez mais vastos. Ser aprendiz simplesmente de tudo que me foi dado, feliz por tudo que me tornei e estou me tornando. Não me arrependo dos fios mal tecidos, dos textos mal escritos, dos amores mal amados. Tudo é parte da construção, ou reconstrução do ser que baila infinitamente. Céu azul e muitas folhas que caem das árvores, demonstrando leveza no toque, sutil chegada ao chão. Aprendi sim com elas e com o amanhecer: renovação, alma limpa, água no rosto, re-vida. Quedas e subidas. Todo dia. Porque é preciso, é urgente, é do que mais somos compostos já dizia Clarice, por urgências. Urgência por amor, por perdão, por plenitude espiritual e equilíbrio emocional. Doce vida que sorri pra quem está triste, mas que precisa ser desvendada a cada pedra interrompida, a cada passo atrapalhado. Vida bela que parece uma piada, mas que passa feito rio, com suas águas turvas e incessantes, não param. Invejemos os rios, as folhas, o amanhecer, as borboletas que aprendem a voar. Sejamos como eles: cheios de vida e incansáveis.


Mais uma dose de vida pra hoje.                         




Para ouvir!