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terça-feira, 14 de maio de 2013

O encontro

Pego emprestada a alma trêmula de Frida. Intensa, dolorida, um ser azul que flutua em um mundo cinza. Não vai deixar de ser azul por nada. Só que no meu quarto, no meu mundo que não é o México. Depois me sinto como uma personagem esquisita de Clarice. Daquelas que possuem felicidades clandestinas, repentinas, mas que voltam para o seu canto cativo banhado de devaneios. Tocam-se apenas com um animal de zoológico. E aí, acabo também me espelhando numa personagem alva de García Márquez, muito amada, tímida, mas com olhos misteriosos e sedentos por coisas invisíveis, amores distantes. Sempre a mesma ao longo dos anos, só que diferente a cada dia. Logo após, me sinto eu, me bato de frente. É preciso. A verdade fica hesitando em se mostrar, mas de repente a flor no meio do asfalto de Drummond brota, o eu lírico feminino de Chico desatina, o clamor de Ruiz por algum sentimento que sirva alcança o ouvido. É como se tudo ao redor viesse me buscar para um encontro eu - eu. Como um convite para um filme onde a protagonista revela seus grandes mistérios em ações pequenas. Para uma terapia de auto-conhecimento promíscuo com fala desenfreada. Ou para um encontro num lavatório de roupa suja, ou melhor, de palavra suja, onde tudo será devidamente limpo, exposto, guardado ou usado. Jogado fora também. É como se eu me assistisse no divã, derramando meus problemas para um analista tarado que me olha me tirando a roupa pouco a pouco, saboreando cada curva de conflito. Mas ele só quer me levar a descobrir o que estou fazendo ali. Ele não é tarado, talvez minha consciência seja. Tarada por uma verdade sempre intangível que me espatifa por inteira, se fazendo em pedaços. Porque a verdade é sempre uma incógnita que me veste de personagens alheios, mas me desnuda como o analista chamado tempo. Enquanto isso, vou vivendo de meias-verdades e completas mentiras. Numa casa azul de Frida, no fluxo de consciência de Clarice e na leveza polida de García Márquez.





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pensamento colorido

O ritmo do samba antigo me faz sentir saudade do que nunca vivi, reticenciando uma melodia no ouvido que desemboca no lado oculto do meu ser. É arriscado forçar alguma situação, quebrar o elo invisível que se constrói com o pouco que se viveu, apenas para comprovar o que o sonho enfeita nas noites longas. Ouso dizer imoral a tentativa de compreender o caminho ponteado por uma pureza inexplicável do mistério que a gente encontra para enlaçar o óbvio. Porque enigmaticamente a ausência de toques me leva a lugares desconhecidos, me leva a um passo do amor inventado em pleno carnaval, a mil pés da realidade crua. Porque a concretude do mundo sempre abre muitas portas para a abstração que ele abriga pelo não transparecer. Ou não transformar para aparecer? O vazio do ambiente, o choro abafado, o silêncio ensurdecedor, os olhares famintos, as palavras nas entrelinhas, os sentidos lá fora, a fumaça tragada e solta pelo ar do desejo. E é ainda mais misteriosa a ponte que se cria entre o meu pensamento e o fato, tão distantes quanto à insana necessidade de dar gás às tolices esvoaçantes, de alimentar os meus exageros discretos, de enfartar os afetos, remendando (des)pedaços das minhas imaginações bordadas. Pois é mais convincente dizer que tudo tem acontecido nesse silêncio profundo que a gente acaba se afogando, querendo sair vivo e morrendo por não viver. Porque as vontades se concretizam mesmo nessa lacuna que a gente insiste em chamar de pensamento, se alongando em uma forma, num sentido, numa cor, feito arco-íris, digno do encantamento que traz aos olhos de quem o risca com os dedos apontados para o céu, quando lá mesmo ele se desfaz. E talvez seja só isso: o belo que se busca aos tropeços em contraste com a realidade escorregadia. Sensata, mas deixando muito a desejar para a minha mente ritmada pelo samba de raiz, o mesmo que me transporta para um passado jamais experimentado, talvez para as minhas raízes imaginárias.

Silvanna Oliveira


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Certo, tempo!

A vida é um relógio com ponteiros invisíveis. E eu sempre tento mergulhar nessas horas de cabeça rasa e alma profunda - tenho dito. O meu coração é mais velho do que o resto do corpo e somente meus lábios rejuvenescem... a cada paixão desenfreada, a cada dose de alegria ingerida com as palavras de felicidade (instantânea), e de desilusão mais instantânea ainda. Enlouqueço e depois vou embora sem dar beijos de despedida, nem endereço para a esperança que quase brota. A volúpia termina onde começa o amor. E eu continuo normal por fora: minhas roupas meio shuffle, meus sábados à noite, meus goles já rotineiros... tudo aparentemente na linha, menos meu desalinho por dentro. Desalinho de acordar apaixonada e dormir com o coração na mão. De ter mãos quentes para aquecer e respostas frias para ouvir. De respirar e não poder dividir o ar. Com um ladrão de sorrisos que me traga flores, que me roube o ar, que me trague amor. É assim que transformo meus alvos afetivos em nuvens que tremem no céu. Se as tateio e as furo, volto sempre de palmas vazias, como quem se doa e se dói, nesta sequência. Aproveito e morro numa ilusão, que pairante sobre essas nuvens, dribla o alguém previsto nas cartas de tarô... fumaça solta e insistente que tem tempo limitado para se esvair! Mesmo sendo eu o tudo feliz, ou o nada vagante daqueles momentos efêmeros com caras de eterno. É, eu também acabo caindo nas ciladas de botequins, tombando na calçada desses amores trôpegos e de quinta categoria que chegam aos montes. Os mais refinados, apesar de demodês para um coração à frente do seu tempo, e de saírem de linha tão rápido quanto os minutos engolidos por uma boa memória e um bom vinho, me enlouquecem mais uma vez. Contradigo-me sempre. Meu coração junto a toda essa fugacidade, continua indo embora súbito feito alguém que beira a velhice esperando a hora de partir, sem concretizar metade dos desejos envelopados pelo tempo. Carregando olhos já cansados de ver tantos absurdos seguidos, tantos passos sem abismos, tantos suicídios em uma só vida. E assim eu me comporto dentro da normalidade cortejada pelos insanos que me topam todo dia na esquina. A dose diária de realidade, a espera do fim dos carnavais. Minha vida talvez seja um relógio atrasado ou adiantado demais. Quem sabe quebrado ou esquecido de despertar para o que chegou e foi embora. Ou para a hora que não chega nunca. Invisíveis ponteiros, será que existe mesmo o tempo certo?

Silvanna Oliveira

ps: Como diria Olavo, meu eu-lírico precisa de terapia rsrsrs

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Retiro

summer moved on

Eu devia pegar as malas e partir. Ir à rodoviária ou ao aeroporto. Comprar passagens para um lugar sem nome, explorar a existência, implodir minha crise. Esquecer-me num retiro, ausentar-me da vida aqui. Eu devia ir embora e voltar sorrindo, com alma e cara novas, pra ninguém colocar defeito. Eu devia ir embora sem me despedir . Descarregar as angústias amorosas e reparti-las com desconhecidos, passageiros imaginários. Talvez servissem pra uma crônica qualquer. Eu devia seguir outro rumo, fugir da rotina atordoante, respirar novos ares em busca de uma expiração do ar pesado. Limpar pulmões, mente e coração. Filtrar os pensamentos através de um funil, onde eu não pudesse reutilizá-lo. Simplesmente sumir que nem poeira na estrada, ser o rastro de fumaça amarelada na cara de quem vem atrás. Devia mimetizar a estrela cadente no céu negro, o vulto no corredor escuro, o carro que corre a mais de duzentos por hora na estrada. Sair de fininho de casa, não deixar bilhetes com palavras explicativas para tal desatino, permitindo a louca vontade de fórmulas transcendentes, indecifráveis. Uma espécie de busca do meu interior, só que lá fora. A mil pés de altura, a alguns graus negativos. Quem sabe aproveitar o ensejo e inventar novas fantasias, me afundar em outros amores rasos. Impressionar-me com slogans convidativos, mesmo sendo os mais banais possíveis. Devia mesmo, agir com a epifania dos seres, o gozo dos poucos. Inventar novos lugares pra contemplar o pôr do sol, novas doses para amortecer desilusões, novos cheiros para serem lembrados daqui a uns anos. Dar o tempo do clichê que aqui se tornou, ficar longe das pessoas piegas demais, exigentes demais pro cotidiano cíclico demais. Quando voltasse, viria na mala muitas saudades e uns contos para escrever. 

Talvez até um novo amor.

"O problema é que quero 
muitas coisas simples, 
então pareço exigente." 
Fernanda Young
                           

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Urgência

É muito bonito sair do casulo e aprender a voar. Asas espaçadas, ares novos e cava vez mais vastos. Ser aprendiz simplesmente de tudo que me foi dado, feliz por tudo que me tornei e estou me tornando. Não me arrependo dos fios mal tecidos, dos textos mal escritos, dos amores mal amados. Tudo é parte da construção, ou reconstrução do ser que baila infinitamente. Céu azul e muitas folhas que caem das árvores, demonstrando leveza no toque, sutil chegada ao chão. Aprendi sim com elas e com o amanhecer: renovação, alma limpa, água no rosto, re-vida. Quedas e subidas. Todo dia. Porque é preciso, é urgente, é do que mais somos compostos já dizia Clarice, por urgências. Urgência por amor, por perdão, por plenitude espiritual e equilíbrio emocional. Doce vida que sorri pra quem está triste, mas que precisa ser desvendada a cada pedra interrompida, a cada passo atrapalhado. Vida bela que parece uma piada, mas que passa feito rio, com suas águas turvas e incessantes, não param. Invejemos os rios, as folhas, o amanhecer, as borboletas que aprendem a voar. Sejamos como eles: cheios de vida e incansáveis.


Mais uma dose de vida pra hoje.                         




Para ouvir!

domingo, 30 de outubro de 2011

Alheia

Ensaiando na imaginação beijos de novela, eu me perco nas noites de sábado movimentadas por dentro. Saio na esperança pobre de encontrar alguém bacana como qualquer garota que possua sentimentos. Mas sempre tropeço no que espero e fico à mercê das ruas vazias e sorrisos falsos. Fico querendo algo que me vire a cabeça em menos de vinte e quatro horas e que me roube a razão. Me visto de preto, desenho os lábios com vermelho e sublinho as pálpebras, aquelas que poucos tomam nota. Na verdade, o que está por trás dessa maquiagem é o que realmente tem algo a dizer, mesmo que não esteja ninguém disposto a ouvir. Isso já faz tempo e eu simplesmente deixei de dar importância. As banais conversas e o copo de vinho me fatigam das madrugadas sozinhas e o costume já caiu no meu sangue, que apenas circula, vital. A solidão sempre foi minha companhia, e dentre as lamentações e o conformismo me vem lábios cerrados e indiferentes ao que todos procuram nas esquinas da vida, e até consigo deixar escapulir um sorriso. Não sei se porque cansei de chorar feridas abertas pela diabetes dos sentimentos, mas a real é que ando bem alheia aos caminhos, desistindo de tentar acertá-los insanamente. Simples e calma eu sigo sem parar pra perguntar se estou correta porque o que me dão de referência não serve pra seu ninguém, muito menos pra mim. O que me resta é apenas a vontade silenciosa e paciente que não desespera, apenas amacia minha apatia ao lado punk das coisas sem explicação. Não me sinto perdida, nem equilibrada, mas me sinto no lugar que deveria estar. As línguas compartilhadas me chamam e eu vou sem pensar muito, pois beijos nunca foram contratos de quem nada tem a nos oferecer. Estar disponível para o homicídio de um desejo não significa uma prisão, mas cada vez mais uma liberdade que grita. A velocidade da luz e das emoções fantasiadas de sentimentos acabam por agir na minha existência. Por fim, assisto ao mover do dono do all star e das minhas emoções. Felizmente Deus não dá asa a cobra.


A melhor coisa é prender-se ao coração libertino.
A pior é ele desejar algemas.

domingo, 23 de outubro de 2011

O mundo é bão Sebastião

Me sinto um bichinho que escapou da mata e foi parar na estrada, onde nada tem a ver, nada cabe a existência, tudo é nonsense. Sim, é assim que me sinto no lugar que me jogaram pra nascer. As pessoas me assustam e o asfalto confirma meu tédio. O coração de pedra, a alma como um arranha-céu, me sinto pequena, inútil. Aquilo a que suspiro toda hora não me alcança, pois o que vejo é tão concreto a ponto de me furar. Os sentimentos verdadeiros caíram por terra e eu me perdi na cidade grande, de pessoas grandes, mas de corações pequenos. Cheias de títulos, cheias de razão, sem amor. Mas quem me manda querer ser grande e ter coração maior ainda? Talvez isso seja uma espécie de deficiência sentimental. Meu amor não tem crédito, e por isso o guardo na bolsa ensaiando pelo momento de poder entregá-lo. Me disseram que isso não é amor, isso é qualquer coisa lá que não se deve dar a ninguém, pois quem há de merecer? E eu insistentemente acredito em seu poder e o deixo envolto pelo quartzo branco que minha mãe me deu, na tentativa frustrante de conservá-lo. Permaneço a driblar as ciladas que a gente grande me faz cair toda hora, e que eu ingenuamente reajo com dor. Que bobagem! Eu sambo também pois nunca é tão tarde para se passar tempo num mundo-casa. Nem tudo pode assim cruel, moça. Aqui também tem alegria enquanto se aprende a conviver com essa gente, mesmo não sendo igual a ela. Porque as coisas boas e puras ainda existem mesmo que tão invisíveis e poucas entre o rachar do asfalto quente de todo dia. O que falta são os praticantes. Será? Sim, já foi. Prefiro pensar assim, a ter que me afogar numa bebida de um bar qualquer e camuflar minha angústia. Resmungar da vida não faz meu gênero, mesmo sendo bombardeada com o viver dos outros - conviver, nada fácil. O que desejo, nunca terei. Então os sentimentos se reúnem e combinam para serem autossuficientes me invadindo numa ciranda, por muito tempo. A força deles é meu motor. 
Mas alguém há de acordar e me surpreender? 
Cuidado, isso não é muito de se esperar, pois o mundo ensina a esperteza, mas não traz a sabedoria. O mundo ensina a mentir, mas não a esconde a verdade. O mundo oferece os cargos, mas não te livra de virar pó. 


O mundo é bão Sebastião¹, mas não ensina a amar.




¹Música de Nando Reis

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Outubro


Outubro chegou e com ele, meu aniversário que se aproxima. Apenas um lembrete na porta, um despertador para avisar que o tempo está passando, e eu morrendo. Eu me levanto, esfrego os olho em busca de uma nova luz que me guie paz. De alguma forma, me vem a lista enorme de coisas a fazer do ano velho pra cá, e recordo que nem metade destas eu realizei. Mas os planos estão lá, no papel. Não tenho visto mais quem eu queria, nem terminei as aulas de violão, não iniciei a dança, não entrei na academia, nem muito menos aprendi francês. Li menos livros do que eu gostaria (até aqui), não me distanciei do que me fez mal, fui de encontro aos meus valores, dei valores desmerecidos, fui besta, sofri sem necessidade. Mas fiz mais planos ainda, sorri demais, me arrependi e consegui rir das desgraças, perdas. Comecei a trabalhar, encarei alguns medos, fiquei mais mulher. Tudo meio que involuntário, como se a vida resolvesse me dizer vários sins de uma vez, apesar dos pesares. Acho que fiquei mais independente, apesar de sempre tropeçar sozinha no ônibus. Meus dias me vestiram e me encheram de vida. Saí menos, entendi mais as pessoas e seus problemas. Ouvi bem mais os outros, e com a minha boca usei cadeados. Até aqui, vida amorosa pouca agitada, mas dias tão bonitos. Felizes, claros e cheios de esperanças que me embalam. Pra algo que me espera, pra um abrir de portas que me mantém intacta e com um sorriso nos lábios. Fortaleci laços também, descobri irmãos, quebrei a cara, mas perdoei pra caramba. Engoli muito seco quando o que eu mais queria era mandar toda a sociedade ir se fuder. Eu me descobri, e até agora não consegui me definir. Nem quero. Gosto desse enigma de ser, de viver, de conviver. Pra mim, não há algo mais fantástico e desafiador... Reviro fotos e elas riem da minha cara arcaica, que desmonta castelos invisíveis. Não tenho culpa por ser memorialista, saudosista, romântica mesmo parecendo uma pedra. Vivo errando também, odeio a ânsia de pessoas que só querem ter razão e que se escondem atrás de suas fraquezas. Eu gosto de quem se despe e de quem se joga mesmo. Odeio os politicamente corretos, apesar de ter que aturá-los - não quero parecer ser. Tenho odiado quem acredita em milagres sem mover uma palha. Os que usam viseiras e vivem de mãos atadas. Pois mais um mês do ano está indo, o outro chegará logo mais. Se você não muda, nada mais mudará. Data nova, inédita, mas dias que simplesmente continuam. Tento me juntar a eles e corro pra não perder o trem. Arrisco mais e desisto de ter que arranjar um motivo novo para reclamar da vida velha. Acho isso tão sinônimo de comodismo...


Incômodo.

Talvez porque o mais difícil seja se renovar, sendo exatamente o mesmo.


Go ahead...

domingo, 2 de outubro de 2011

Pensar para viver


Eu gosto e sempre paro pra pensar no mistério da vida. Às vezes pareço boba, ingênua, idealista. Ao mesmo tempo pareço ferrenha, realista, pés sobre o chão demais. Mas pensar nela já faz parte do minha coleção de incógnitas. Vez em quando, acordo amando o canto dos passarinhos que abrem meu dia, me abobalho olhando pro céu, encho o olho de lágrimas ao ver o sol se pôr e ao nascer também (isso parece tolo, mas é verdade). Me pego sentindo a brisa e fechando os olhos, reparo numa folha caindo no caminho da faculdade, em um animalzinho que passa por mim. Sou fascinada pela natureza, tenho paixão por tudo que vem dela. Nessas pequenas coisas, vejo o quanto a vida é bela, é importante, misteriosa e boa. Não acho que seja curta num sentido vago como dizem por aí. Depende de como você aproveita ou não seu tempo. Sendo bem vivida, poderá até ser curta, mas bem aproveitada o será também. Se muito longa, pode ser exaustiva. Tudo está de acordo com o referencial e a maneira como se encara esse presente.


De repente, me flagro triste pensando nessa mesma beleza a qual descrevi. Não sei ao certo o porquê de eu tanto me preocupar e de achar que não vivi tudo que gostaria, mas bate um medo dessa coisa às vezes. Também a acho cruel, e de fato ela é. Arrancar quem nós amamos sem nenhuma explicação sequer é o que mais me intriga. Sem falar nas doenças, na pobreza, na desigualdade, na loucura, na crueldade e suicidas. Temos ene motivos pra temer a esta despida tão dual. Mas como já dizia o Toquinho, a vida sempre tem razão. Só sei que é preciso paixão... E é mesmo. Até o dia de hoje, eu a levo de forma tranquila tentando sempre olhar seu lado colorido, pois se for apenas partir de um ângulo pessimista, provavelmente já me teria me jogado do décimo. Não julgo quem é pessimista, diga-se de passagem. Cada um tem seus motivos, sua história e nisso, ninguém poderá intervir.


A vida deixa marcas e disponibiliza também momentos difíceis. Aceitar isso não dá, pelo menos pra mim. Quem sabe engolir a força. Tenho sempre a impressão de que tudo deveria andar conforme o desejo de todos, e que as coisas vis não deveriam existir simplesmente. Parece que não só eu, mas todo mundo tem um pouco dessa ideia de que coisas ruins são apenas coisas ruins. Falar de aprendizado é meio que inútil pra quem já sofreu abalos sísmicos de existência. Mas ele existe, sabemos.


A vida é meio que o desafio de sempre tirar o coelho da cartola; e não só de tirar, mas de saber tirar. A vida é a coisa misteriosa mais bela e rude que já vi. A coisa mais linda e vulgar. Existe pra quem quer e quem não quer. Pra quem acha que entende e também pra quem não entende. Ela está aí pra quem sabe viver; se é essa mesmo a fórmula de não tirar ninguém de uma obrigação a vir escrever isso.


A vida nada mais é do que uma busca incessante, uma felicidade intercalada - que os otimistas concordem comigo. Para os pessimistas, um tédio intercalado. E para os neutros, um composto de momentos.


Mas uma coisa é certo: no dia que alguém entender a vida, parará de viver. Pois o enigma é o que nos prende no agora, no aqui. As surpresas são o que nos encanta e o que nos desencanta num piscar de olhos. Essa sede por respostas, só faz com que cada vez mais ela venha e mude as perguntas.


Perdas e ganhos são seu segredo. Mistério é seu segundo nome. Viver, seu verbo mais cabível.


Para que vivamos...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Anéis de cabelo

Sinto saudade dos meus cachos. Gostava muito deles, assim como os momentos felizes os quais eles se balançavam unânimes. Sinto a morte da naturalidade de um tempo em que eu andava mais despreocupada com a ditadura simétrica, e pouco me importava em avolumar as madeixas, tão leves e soltas, dançantes sobre minha cabeça. Eram anéis que brincavam de ser cabelo. Esses fios hermeticamente conectados se perderam entre o escorregar dos meus lisos e secos de atualmente. E tudo continua muito seco - menos meus sonhos. De novo, os cachos me remetem a um tempo bom de paz, tipo um domingo - que hoje inexoravelmente nada mais é do que uma espera exaustiva pré-segunda. Em alguns exatamente, fui ao parque com meu pais, andei de patins e fiz piquenique. Bons e revitalizantes os domingos ensolarados e felizes que minha vida presenteou-me de maneira singular. Sempre recordo com um sorriso nos lábios da infância que tive. Hoje, sou vestígio daquela criança que cada vez mais vai se desertando, mas ainda cheia de coisas simples na bolsa. A natureza sem pressa torna-se distante. Perto, só se revirada no baú de memórias. Então abro a gaveta, olho as fotos e vejo os caracóis cor de amêndoas, embelezado pela luz do sol. Molhados, sem tingimentos e cortes regulares. Só e somente naturais. Como um passado que une meus sonhos - teimosos em permanecer úmidos diante de tanta secura - a um presente revestido por embrulhos no estômago. Grito pela natureza perdida.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Bons ventos


Acordei bem melhor, como o não desejado. Você me veio assim, feito devaneio. Não perturbou, mas também não sumiu de vez. Ainda suspiro por esse dia, e eu sei que ele há de chegar sem grandes surpresas. Estou bem, distante, apenas escrevendo pra desabafar. Enxuguei lágrimas, guardei a roupa velha, experimentei novos vinhos. Não quero envelhecer contigo. Sinto-me desvairada com o tempo, não tenho dado tanta importância a ele. Ando flutuando, numa leveza sem fim. Estou bem mesmo, não é falsa aparição. Aliás, eu nem apareço pra não "forçar aparências". Não quero que você pense isso de mim. Talvez eu aqui, quieta no meu canto, reflita melhor a paz que me circunda e me faz viva. É a mesma paz que perco de vista algumas vezes, principalmente aquelas que você me vem como um anjo decaído, dizendo: "Mas os tempos mudaram!" e eu respondo: "Sim, mudaram... não acredito mais em anjos!" Tua falta não me alcança mais, e a tarefa de me amar continua na firmeza do concreto, na certeza do sol, no amanhecer de todo dia. Você não me dói, você não me nada. As coisas estão indiferentes, estão diferentes, acredite... não queira me causar, ou causar em mim o que já não é mais uma causa, mas uma consequência. A ferida fechou-se e a dor estacionou em algum lugar do espaço. Pode deitar e me expirar. O ar pesado já se esvaiu há tempos.

Bons ventos pra você.