Pego emprestada a alma trêmula de Frida. Intensa, dolorida, um ser azul que flutua em um mundo cinza. Não vai deixar de ser azul por nada. Só que no meu quarto, no meu mundo que não é o México. Depois me sinto como uma personagem esquisita de Clarice. Daquelas que possuem felicidades clandestinas, repentinas, mas que voltam para o seu canto cativo banhado de devaneios. Tocam-se apenas com um animal de zoológico. E aí, acabo também me espelhando numa personagem alva de García Márquez, muito amada, tímida, mas com olhos misteriosos e sedentos por coisas invisíveis, amores distantes. Sempre a mesma ao longo dos anos, só que diferente a cada dia. Logo após, me sinto eu, me bato de frente. É preciso. A verdade fica hesitando em se mostrar, mas de repente a flor no meio do asfalto de Drummond brota, o eu lírico feminino de Chico desatina, o clamor de Ruiz por algum sentimento que sirva alcança o ouvido. É como se tudo ao redor viesse me buscar para um encontro eu - eu. Como um convite para um filme onde a protagonista revela seus grandes mistérios em ações pequenas. Para uma terapia de auto-conhecimento promíscuo com fala desenfreada. Ou para um encontro num lavatório de roupa suja, ou melhor, de palavra suja, onde tudo será devidamente limpo, exposto, guardado ou usado. Jogado fora também. É como se eu me assistisse no divã, derramando meus problemas para um analista tarado que me olha me tirando a roupa pouco a pouco, saboreando cada curva de conflito. Mas ele só quer me levar a descobrir o que estou fazendo ali. Ele não é tarado, talvez minha consciência seja. Tarada por uma verdade sempre intangível que me espatifa por inteira, se fazendo em pedaços. Porque a verdade é sempre uma incógnita que me veste de personagens alheios, mas me desnuda como o analista chamado tempo. Enquanto isso, vou vivendo de meias-verdades e completas mentiras. Numa casa azul de Frida, no fluxo de consciência de Clarice e na leveza polida de García Márquez.
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terça-feira, 14 de maio de 2013
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Parece bolero
O coração sempre irá buscar refúgio nos olhos de quem um dia o teve na mão. E não há nada que se possa fazer a não ser respirar fundo e dobrar a esquina em busca do novo que tanto se prometeu. Mas lá estava meu corpo me desobedecendo de novo e cá estou eu a te escrever depois de tanto tempo. A vontade gritando feito bicho preso no quintal, toda a distância tranformada em desejo súbito de uma puritana. Nem sempre os caminhos são precisos e os sinuosos passos são por acaso, e acho que por isso te encontrei. Reencontrei uma pequena morada em mim, que desconhecia até o momento de te abraçar com força. Meio esperto, meio ingênuo. Momento de fingir não estarmos conectados um ao outro. Tudo mentira de quem resiste às reticências de uma história. Na verdade, eu percebi quando sua boca travava para expelir o que seus olhos denunciavam. O som do mar nos confundiu mais uma vez e a voz do tempo cantou. As coisas mudaram mesmo, mas alguma coisa boa permaneceu. O pequeno abrigo onde me encostava ainda estava no mesmo lugar, mesmo que desgastado, mesmo que carapuçado da razão que nos precisa. Fomos pegos em flagrante praticando um crime involuntário, o crime do querer sem fim. E não me importarei depois dessas longas datas, se não beber nos teus olhos de mel mais uma vez. Não tomarei lugar de quem hoje tem assento ocupado, nem farei escândalo para te ter de volta. Apenas deitarei no presente, desembrulhando o passado remoto para que eu não me esqueça do que construímos. Não será tentativa frustrada de quem ainda ama, mas uma dádiva de guardar na memória da vida o que hoje é afeto. Acontecerá de vez em quando, sem promessas e lástimas. Pois é sempre desconcertante rever o grande amor, Chico sabia disso.
"Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
(...)
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados..."
(Anos dourados - Chico Buarque)
"Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
(...)
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados..."
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