Simulando o fim de um amor, se é
que posso chamar de amor, vou escrevendo neste domingo de noite quente. Simulo
porque dentro de mim a história já se aproxima de sua morte, sem ao menos ter começado
na vida real. Um pé na cova e uma faca no coração. Eu dou por encerradas as
linhas mal escritas desse romance sem jeito em que me meti a escrever desenfreadamente.
Olhos cerrados de uma ausência presente. O carinho cansado por andar sempre
sozinho me pediu um tempo, arrumou o velório pra solidão se instalar de vez. E
depois de tentativas felizes em meio a carros alegóricos tristes, eu me
ponho a chorar as últimas lágrimas na lápide cinzenta desse amor cadavérico.
Pode parecer melancólico, doentio, cabalístico, mas os sentimentos estão aqui
em graus escuros, umbral da minha alma frustrada por não gritar a dor fina que
me quebra aos poucos, de dentro pra fora. Simulo e chego perto da realidade do
fim, uma hora ou outra teria que acontecer. As flores brotadas no meu cemitério
de amores não foram regadas senão com a chuva previsível, aquela esperada pelos
meteorologistas. Agora reajo fria, calculista que nem eles. O que mais me resta?
Ser coração não foi suficiente para ser amada e a cabeça não dá férias para
quem não trabalha, para quem não se move. Eu quero saltar dessa ilusão,
despedindo-me meio de lado, envergonhada por ter sentido mais, por ter feito
tudo tão cuidadosamente sozinha. Sairei como um poema escrito nos últimos dias
de vida de um poeta, marcante e singelo. Último vinho do ancião. Primeira luz
que entra no quarto do enfermo para levá-lo embora. Resolvi neste minuto, sendo
sempre horas, dias, anos... mas hoje, meu amor, declaro o funeral do meu
sentimento trêmulo, ingênuo, bondoso para com a sua confusão, desorganização em
que me afundei pelo o que tem de mais humano, quase nada de divino: o amor, se
é que posso chamar de amor... antes isso fosse, antes isso fosse bom. Pelo
menos aqui, pelo menos agora. Não simulo mais e despeço-me.
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domingo, 16 de dezembro de 2012
Despedida
Simulando o fim de um amor, se é
que posso chamar de amor, vou escrevendo neste domingo de noite quente. Simulo
porque dentro de mim a história já se aproxima de sua morte, sem ao menos ter começado
na vida real. Um pé na cova e uma faca no coração. Eu dou por encerradas as
linhas mal escritas desse romance sem jeito em que me meti a escrever desenfreadamente.
Olhos cerrados de uma ausência presente. O carinho cansado por andar sempre
sozinho me pediu um tempo, arrumou o velório pra solidão se instalar de vez. E
depois de tentativas felizes em meio a carros alegóricos tristes, eu me
ponho a chorar as últimas lágrimas na lápide cinzenta desse amor cadavérico.
Pode parecer melancólico, doentio, cabalístico, mas os sentimentos estão aqui
em graus escuros, umbral da minha alma frustrada por não gritar a dor fina que
me quebra aos poucos, de dentro pra fora. Simulo e chego perto da realidade do
fim, uma hora ou outra teria que acontecer. As flores brotadas no meu cemitério
de amores não foram regadas senão com a chuva previsível, aquela esperada pelos
meteorologistas. Agora reajo fria, calculista que nem eles. O que mais me resta?
Ser coração não foi suficiente para ser amada e a cabeça não dá férias para
quem não trabalha, para quem não se move. Eu quero saltar dessa ilusão,
despedindo-me meio de lado, envergonhada por ter sentido mais, por ter feito
tudo tão cuidadosamente sozinha. Sairei como um poema escrito nos últimos dias
de vida de um poeta, marcante e singelo. Último vinho do ancião. Primeira luz
que entra no quarto do enfermo para levá-lo embora. Resolvi neste minuto, sendo
sempre horas, dias, anos... mas hoje, meu amor, declaro o funeral do meu
sentimento trêmulo, ingênuo, bondoso para com a sua confusão, desorganização em
que me afundei pelo o que tem de mais humano, quase nada de divino: o amor, se
é que posso chamar de amor... antes isso fosse, antes isso fosse bom. Pelo
menos aqui, pelo menos agora. Não simulo mais e despeço-me.segunda-feira, 9 de julho de 2012
Certo, tempo!
A vida é um relógio com ponteiros invisíveis. E eu sempre tento mergulhar nessas horas de cabeça rasa e alma profunda - tenho dito. O meu coração é mais velho do que o resto do corpo e somente meus lábios rejuvenescem... a cada paixão desenfreada, a cada dose de alegria ingerida com as palavras de felicidade (instantânea), e de desilusão mais instantânea ainda. Enlouqueço e depois vou embora sem dar beijos de despedida, nem endereço para a esperança que quase brota. A volúpia termina onde começa o amor. E eu continuo normal por fora: minhas roupas meio shuffle, meus sábados à noite, meus goles já rotineiros... tudo aparentemente na linha, menos meu desalinho por dentro. Desalinho de acordar apaixonada e dormir com o coração na mão. De ter mãos quentes para aquecer e respostas frias para ouvir. De respirar e não poder dividir o ar. Com um ladrão de sorrisos que me traga flores, que me roube o ar, que me trague amor. É assim que transformo meus alvos afetivos em nuvens que tremem no céu. Se as tateio e as furo, volto sempre de palmas vazias, como quem se doa e se dói, nesta sequência. Aproveito e morro numa ilusão, que pairante sobre essas nuvens, dribla o alguém previsto nas cartas de tarô... fumaça solta e insistente que tem tempo limitado para se esvair! Mesmo sendo eu o tudo feliz, ou o nada vagante daqueles momentos efêmeros com caras de eterno. É, eu também acabo caindo nas ciladas de botequins, tombando na calçada desses amores trôpegos e de quinta categoria que chegam aos montes. Os mais refinados,
apesar de demodês para um coração à frente do seu tempo, e de saírem de
linha tão rápido quanto os minutos engolidos por uma boa memória e um bom
vinho, me enlouquecem mais uma vez. Contradigo-me sempre. Meu coração
junto a toda essa fugacidade, continua indo embora súbito feito alguém
que beira a velhice esperando a hora de partir, sem concretizar metade dos
desejos envelopados pelo tempo. Carregando olhos já cansados de ver tantos absurdos seguidos, tantos passos sem abismos, tantos suicídios em uma só vida. E assim eu me comporto dentro da normalidade cortejada pelos insanos que me topam todo dia na esquina. A dose diária de realidade, a espera do fim dos carnavais. Minha vida talvez seja um relógio atrasado ou adiantado demais. Quem sabe quebrado ou esquecido de despertar para o que chegou e foi embora. Ou para a hora que não chega nunca. Invisíveis ponteiros, será que existe mesmo o tempo certo?
Silvanna Oliveira
ps: Como diria Olavo, meu eu-lírico precisa de terapia rsrsrs
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Que explique a minha paz
Os dias me consomem aos poucos, como a fumaça do cigarro que confunde a poeira solar em fim de tarde, esvaindo para o nada. Meus passos lentos entregaram todo o meu torpor de conquistar um novo alguém, de começar a ter as milhões de emoções, só que partindo do zero. Ouvinte de propostas indecentes e superficiais, me esqueço alheia às mesmas, saltando indolente com destino ao futuro do meu coração elegante e profundo. Não se podia esperar muito de quem já cansou de viver metades de tempo, vestígios de companhias e restos de amor. Sim, precisei mendigar por um mínimo de atenção e até vestir sorrisos fáceis para perceber que estas nunca foram estratégias boas de agarrar alguém para si. Aderir à ilusão de posse eterna e vulgar muito menos. E mesmo reivindicando meus direitos de sentir a dois, mesmo sabendo que o singelo é também robusto, e mesmo tratando de coisas destratantes, eu decidi por segurar a liberdade na mão e ser passiva de outras atenções, guardando um pouco da minha tão ingênua e fosca. Escondi a vidente que adorava prever errado e fechei os olhos para as expectativas cinzas, as quais encobriam minha visão de algo melhor. Acho que caiu bem em mim esse novo colete salva-amor, afinal, meu possível resgate não implica em esperas exaustivas, nem na ausência total de sentimento. Já-não-mais. O amor sempre fez parte de mim, como um membro que se amputado, faria falta e inibiria o movimento mais trivial. Ele é meu braço direito, o combustível que me move no mundo, meu perispírito em carne e osso. Portanto, renunciar das esmolas obtidas com suor amargo, não há de ser tradução da vontade de amar doce, nula, mas sim do desejo de uma história acre, viva. E com essa evasão pra dentro de mim, enxergo o quanto o sentimento mais profundo e vermelho me habita, inexplorado ainda porém belo. Conhecer o lado que gritava calado, implorando vez para desistir dos amores rasos, foi dissipar a calma até então inexistente e ter como resposta, o repouso no silêncio.
Não há recusa do raso que não signifique um início de paz profunda.
ps: título referente à música "Casa pré-fabricada" na composição de Marcelo Camelo.
Não há recusa do raso que não signifique um início de paz profunda.
ps: título referente à música "Casa pré-fabricada" na composição de Marcelo Camelo.
domingo, 20 de novembro de 2011
Vento de mudança
É estranho construir castelo e temer o vento que um dia viria a derrubá-lo. O tempo passa e o vento chega, sopra aos ouvidos, assobia forte. Parece não adiantar todas as fantasias, as palavras arquitetadas, a pressa em rever o que estava errado. Nada mal. A gente sempre sai do fundo do poço e salta de novo pra o mundo lá fora. A gente baila conforme a música, dança de mãos dadas com a emoção e mais uma vez, pega o coração com as palmas, ainda no ritmo. Remedia-o e o entrega para o outro adoecê-lo. As xícaras ficam fora do lugar, as melodias desentoam, os lugares soam insanos, as pessoas mais chatas do que parecem, mas isso é temporário. A vontade se transforma em utopia, numa loucura abafada, numa lágrima derramada levemente no travesseiro, aquele que encosta a cabeça de chumbo. Quase nunca esquecemos rápido. No começo é beco sem saída, nublado perdurando dias e dias, cegueira pra felicidade que se guarda. Mas grandiloquência nos fatos é desestimulador demais e somente a fé levanta ombros caídos. A fé como uma corda bamba, não tão mole a ponto de nos fazer cair. Seria possível então controlar desejo faminto no meio da tarde carente? Renunciar a esperança adquirida com suor? Melhor desistir de rumos iguais na espera de resultados diferentes. Porque alguma coisa lá dentro muda, sai da linha, se machuca fino, feito copo espatifado no polegar. Isso tem que ser válido, o sofrimento precisa ter crédito ao menos uma vez. Dormir no tempo, esquecer-se na varanda com o pensamento embargado nas relações frágeis, talvez um canto desafinado - encantador pra quem nada ouve. Encanta a dor? Lágrima fugidia novamente. Sentir o latejar também traz suas resistências, pois depois sempre vem outras vozes graves e nos surpreendem com novos cantos. Des-cantando a dor? E lá vão eles de novo ao encontro, a uma nova batida. O que não vale é lamentação demais, coitadismos sem fim, mas o calar-se, o recolher-se na frente do espelho, o sorriso desgastado porém revitalizante. Sorriso que revela um fiapo de amor invencível, não desistente de sua aparição. Pedacinho sobrado que assobia levemente aos ouvidos do coração desesperado por continuação. Que tal reticenciar? Por fim, abrir a janela do quarto em busca do vento de mudança que acalma o desespero, dá refresco ao fraco. Recomeçar almejante por um final incerto, tentando sair mais forte desse princípio. De passagem, aproveitar pra fugir da posição secundária, assumir-se protagonista, mas jamais menos vulnerável às tragédias que o temor do vento trará. Construir, destruir, reconstruir.
E que venha o próximo.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Provisório
Como não podia ser outra, fui eu mesma. Não criei expectativas, fiz de conta não me apegar, abafei sentimentos e vontades loucas, forjei a cara de apaixonada com maquiagem escura. Saí por aí atrás de uma peneira que tapasse meu sol, um amor que suportasse minha lacuna. Minha necessidade por atenção, minha desistência por migalhas. Fui a procura de um copo quase a derramar num boteco, de um sorriso que formasse pés de galinha, num abraço que durasse mais de dois minutos. Não encontrei. Então sobrevivi e continuei fingindo ser feliz com esse pouco que me resta, com essa enorme falta amortizada pelos conselhos, com esse jeito insensato de estar satisfeita com centavos de amor. Tenho dado muito crédito ao amor inventado e contrariado quem não acredita que nascer e morrer são só o princípio e fim de uma piada de mau gosto. Ao mesmo tempo, é estranho ter paciência e cara pra me submeter a encontros pela metade, beijos rápidos e palavras mentirosas. Acreditar no inacreditável e soprar absurdos pra quem desiste de viver na primeira topada. O que eu defendo em duelo com a minha abstinência de toques. Sendo esta a minha forma de caminhar sem sapatos, invento um meio de desmistificar a ideia do amanhã, e viver esse hoje acreditando no infinito mesmo sabendo que ele não existe. Levar aos trancos e barrancos, com um sorriso meia lua e com o pouco que me é cedido, impedindo que a sobra me alcance. Me sento em frente ao mar e invejo os grãos de areia tão minúsculos, mas que formam vidas intrínsecas, vastidões iluminadas pelo sol que resseca e pela chuva que refresca. Invejo porque assim quereria meu sentimento. Coisa sem nome, pronta, esperando para ser alastrada, descoberta. Sem (a)mar, sem abundância, desvio meu campo visual dos grãos de areia que formam desertos e desprezo a garrafinha improvisada de água para me manter viva. Por pouco tempo. A fonte de ilusão vai acabando e a miragem me acena de longe.
domingo, 30 de outubro de 2011
Alheia
Ensaiando na imaginação beijos de novela, eu me perco nas noites de sábado movimentadas por dentro. Saio na esperança pobre de encontrar alguém bacana como qualquer garota que possua sentimentos. Mas sempre tropeço no que espero e fico à mercê das ruas vazias e sorrisos falsos. Fico querendo algo que me vire a cabeça em menos de vinte e quatro horas e que me roube a razão. Me visto de preto, desenho os lábios com vermelho e sublinho as pálpebras, aquelas que poucos tomam nota. Na verdade, o que está por trás dessa maquiagem é o que realmente tem algo a dizer, mesmo que não esteja ninguém disposto a ouvir. Isso já faz tempo e eu simplesmente deixei de dar importância. As banais conversas e o copo de vinho me fatigam das madrugadas sozinhas e o costume já caiu no meu sangue, que apenas circula, vital. A solidão sempre foi minha companhia, e dentre as lamentações e o conformismo me vem lábios cerrados e indiferentes ao que todos procuram nas esquinas da vida, e até consigo deixar escapulir um sorriso. Não sei se porque cansei de chorar feridas abertas pela diabetes dos sentimentos, mas a real é que ando bem alheia aos caminhos, desistindo de tentar acertá-los insanamente. Simples e calma eu sigo sem parar pra perguntar se estou correta porque o que me dão de referência não serve pra seu ninguém, muito menos pra mim. O que me resta é apenas a vontade silenciosa e paciente que não desespera, apenas amacia minha apatia ao lado punk das coisas sem explicação. Não me sinto perdida, nem equilibrada, mas me sinto no lugar que deveria estar. As línguas compartilhadas me chamam e eu vou sem pensar muito, pois beijos nunca foram contratos de quem nada tem a nos oferecer. Estar disponível para o homicídio de um desejo não significa uma prisão, mas cada vez mais uma liberdade que grita. A velocidade da luz e das emoções fantasiadas de sentimentos acabam por agir na minha existência. Por fim, assisto ao mover do dono do all star e das minhas emoções. Felizmente Deus não dá asa a cobra.
A melhor coisa é prender-se ao coração libertino.
A pior é ele desejar algemas.
A melhor coisa é prender-se ao coração libertino.
A pior é ele desejar algemas.
sábado, 22 de outubro de 2011
Versus
O amor que inventei por você. Mas que não passa de um ódio provisório.
Nada é permanente.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Desejo
Chega um momento que aquela coisa de que tudo tem sua hora começa a parecer mais perto, mais palpável. Hora em que as coisas começam a fazer sentido e o que dizem não soa tão provérbio. É aí que o coração palpita e a alma entende. As sintonias resolvem andar de mãos dadas e as coincidências (ou não) aproveitam pra chover no seu quintal. Às vezes vem como temporal e te cercam em casa somente para assisti-lo. Os gostos decidem por se encontrar na pracinha e se beijarem como apaixonados loucos. Como em um começo que sempre é bem-vindo. Bem entendido como uma fração de tempo eterna. Como uma primavera: provisória, mas que se prolonga com um olhar, um toque, uma vontade gritante. Sim... é aí que a boca treme e a mão gela porque o sangue corre pra outras esquinas para esperar a hora de entrar com tudo. O corpo fala alto, as palavras ficam mudas. O momento merece asteriscos de cintilações. O arrepio é um aviso sussurrante. Quente, frio. Bom como a estação. Uma pena é durar pouco. Avassalador e dominante.
Ainda assim, te dou a vez....
Desejo sem governo.
Ainda assim, te dou a vez....
Desejo sem governo.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Ele
Ele vem naturalmente calmo, recolhido e imprestável para paixões. Bombeia o vermelho, o desejo, e suspira mesmo que silencioso. Eu vivo a conversar com ele por telepatia, nós nos entendemos pefeitamente. Fizemos até um acordo: ele me dá segurança e eu em troca, dou um grande amor - que ainda não tenho.
¹Música "Socorro" de Arnaldo Antunes
Hoje me veio reclamar uma coisa, cheio de razão. Pergutou o porquê de tantos insistirem em sacudi-lo quando não é permitido, e pior, surtirem tal efeito. Eu respondi que talvez seja só uma fase, de insegurança, imobilidade efêmera. Sempre me apoiando numa certeza ingênua.
Daí veio eu, a questioná-lo o motivo dele ser tão cruel comigo, e de não andar mais depressa, pulsar mais forte, derramar sua cor sobre os ares, deixando as coisas mais moles. Mas ele me cobra o que tínhamos combinado. Paciência.
De um tempo pra cá, ele tem parado de funcionar, de responder aos meus estímulos e se finge de morto o tempo todo, querendo me enganar e me deixar constrangida quando os outros perguntam como ele anda. Nem sobre sua função vital e básica, eu me atrevo a responder. Ele não me deu satisfação, também não quero mais saber dele.
Dentro da indiferença, ele já não bate nem apanha¹.
Andei tratando-o como algo que independe do meu corpo, dos meu gritos - uma coisa à parte. E me deparei com o maior de todos as fórmulas: o sentimento involuntário. Sem força, sem fé, sem ferro.
Compreendi que ele tinha vontade própria e que por esse motivo, parou de fazer acordos comigo, me acordei. Além do mais, eu descobri também que segurança e grande amor não são dívidas, mas dádivas. Quem sabe um dia eu as receba de um alguém.
¹Música "Socorro" de Arnaldo Antunes
domingo, 4 de setembro de 2011
Unilateral
E sem negar desgraças, afundo-me no copo da hipocrisia.
domingo, 28 de agosto de 2011
Recado dado
Muita gente me pergunta o porquê de eu ainda estar solteira, depois de tanto tempo. Para os outros, as teias de aranhas tomam conta da minha vida e eu devo estar desesperada por um colo. Digo sorrindo que estou bem sozinha, e que não curto o medo da solidão, a que todos insistem em crucificar. Tendo sempre que responder as mesmas perguntas para pessoas diferentes, torno-me cada vez mais irredutível nas respostas. Poque de fato, nunca me importei ou pelo menos necessitei de estar sempre com alguém ao lado, curtindo praia, cinema e sábados em casa. Pode me chamar do que quiser: encalhada, seletiva, sonsa, alien, recatada, metida, independente - a vida seria sem graça sem os adjetivos. Mas quero que saibas que não me importo em continuar firme no que acredito e que minha situação, diferente do que pensam, não é nenhum um pouco deprimente. Vivo bem, tenho um presente bacana, mais um futuro incerto e muitos amores guardados numa caixinha chamada coração. Porque não publicá-los em redes sociais não significa que eu não os tenha. Sou uma pessoa, tenho sentimentos, me apaixono e desapaixono. Por um olhar, por um sorriso, por umas palavras mentirosas. Ah, me decepciono também e adoro ler textinhos da Lygia, do Quintana e da Clarice naquelas horas em que a saudade aperta. Sou gente também, não sou extra-terrestre. Apenas prefiro, ou melhor, não consigo me adaptar aos súbitos espaços de tempo chamados de 'ficar' que permeiam entre corações e objetos. Antes de ficar, gosto de ficar me amando, de ficar de bem comigo mesma, de ficar comigo. Adoro sem tirar nem pôr, ficar assim. Beijar por beijar não me preencheu, nem nunca me preencherá. Quem sabe um beijo mais a vontade mais o desejo mais um sentimento mais uma paixão mais um amor seja o que tão satisfatoriamente reservo pra mim. Não tenho culpa por gostar de ser assim, nem por ouvir música, sair no fim de semana, me divertir, escrever, ler e respirar sozinha. É uma pena pra sociedade que minha necessidade não esteja prioritariamente ligada a um outro alguém. Quem sabe, isso fique no meu segundo plano. Incerto, espontâneo e duradouro. E o que me inspira a vir aqui e dizer essas coisas é o quanto ser sozinha seja tão sinônimo de estar numa bad. Para mim, eu não estou. Para você, recado dado.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Bons ventos
Acordei bem melhor, como o não desejado. Você me veio assim, feito devaneio. Não perturbou, mas também não sumiu de vez. Ainda suspiro por esse dia, e eu sei que ele há de chegar sem grandes surpresas. Estou bem, distante, apenas escrevendo pra desabafar. Enxuguei lágrimas, guardei a roupa velha, experimentei novos vinhos. Não quero envelhecer contigo. Sinto-me desvairada com o tempo, não tenho dado tanta importância a ele. Ando flutuando, numa leveza sem fim. Estou bem mesmo, não é falsa aparição. Aliás, eu nem apareço pra não "forçar aparências". Não quero que você pense isso de mim. Talvez eu aqui, quieta no meu canto, reflita melhor a paz que me circunda e me faz viva. É a mesma paz que perco de vista algumas vezes, principalmente aquelas que você me vem como um anjo decaído, dizendo: "Mas os tempos mudaram!" e eu respondo: "Sim, mudaram... não acredito mais em anjos!" Tua falta não me alcança mais, e a tarefa de me amar continua na firmeza do concreto, na certeza do sol, no amanhecer de todo dia. Você não me dói, você não me nada. As coisas estão indiferentes, estão diferentes, acredite... não queira me causar, ou causar em mim o que já não é mais uma causa, mas uma consequência. A ferida fechou-se e a dor estacionou em algum lugar do espaço. Pode deitar e me expirar. O ar pesado já se esvaiu há tempos.
Bons ventos pra você.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Liberté
A natureza, amiga da liberdade, abriu-me os olhos para o que de fato fosse meu, mesmo que temporariamente - sem ilusões de finais felizes. Nada de propriedades, obsessões e insanidade travestida de amor. E apesar de adotar essa forma de encarar as situações, não costumo ser hipócrita a ponto de negar falhas comuns de um ser humano. Ainda desejo só pra mim, cometo exigências banais e sou egoísta, sim. Mas existe uma razão que vem até minha porta, toca na campainha e não vai embora.
Passei a acreditar mais em "amor livre" e agarrei isso com unhas e dentes. Talvez porque as melhores coisas que me aconteceram, foram dentro da ciranda da liberdade. Só liguei quando quis, só fui procurada quando a falta se pronunciou; só amei quando tive espaço, só fui amada quando dei folga a sorte. Uma coisa mais crua, mais independente, mais genuína. Com a minha presença, dei o direito de querer; se esteve ao meu lado, foi porque sentiu. Minha importância só na base da conquista, nada de solicitações esmolentas e rápidas - quem sabe numa hora de carência, servissem. Admiração só por mérito e sem marketing pessoal, por favor. Abaixo os enaltecimentos precoces!
Talvez porque o mundo conquistou a liberdade de expressão, mas não a de sentimentos. Talvez porque eu queira mais originalidade no sentir.
Decido por fim, prosseguir em paz, passando por cima de dúvidas corriqueiras e adorando uma liberdade infinita. Cheia de borboletas que possuem querer, voando num céu que não tem volta.
Perco-me com minhas asas incessantes.
terça-feira, 26 de julho de 2011
De olhos abertos
Talvez seja um começo, ou talvez não seja nada. Nunca se sabe essas coisas de coração. Fui dormir tarde e pensei por alguns instantes no que minha sensibilidade tem me submetido nos últimos tempos. Sem morbidez, apenas olhos famintos por luz. Saí da escuridão há meses, mas ainda sopro poeira. Decidi ficar à disposição do destino com um dedo meu, e desisti de me equilibrar em cordas bambas. Claro que sempre acompanhada de um manual de mulher bem resolvida e um par de asas insistentes. Flores, oceanos e céu azul não tem sido tanto minha prioridade já que de alguma forma involuntária, aprendi a suportar espinhos, desertos e invernos. Não me dói mais frios horrendos, e calores insuportáveis - talvez a falta deles. Eu me sinto como um poço de sensibilidade, fruta madura, cheia de amores ainda verdes. Sorri na minha cama ao pensar nos milhares de começos que a vida me deu, mas as continuações que ela não me pemitiu. Ou eu não me permiti. Ou não foi permitido por alguma coisa menor ou maior que eu. Sorrio porque adoro esses contos de estrada: curvas incansáveis, palavras retilínias, ações tangentes. Distraí-me olhando as horas e esqueci meus olhos no nada. Depois veio você.
Adormeci de olhos abertos.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Doce (com)paixão

Na verdade, tenho me sentido perdida entre o fomento congestionado que chamam de coração e as palavras-neologistas desse vocabulário à parte. Esse coração, indiferente aos estímulos do mundo, está apenas esperando para ser reconhecido, ou melhor, descansando para ser recauchutado. Mais uma vez. Ele se senta, aquieta-se numa posição cômoda, mas suspira por um estimulante - avassalador. A paixão.Tu me dissestes que as paixões por mais dilaceradas que sejam, não param, aliás, estão a mil por hora. Acho isso muito bom (quando acontece) porque só assim eu posso sair um pouco de mim, dar férias à razão, como se tomasse um doce inteiro de vez. Essas doses, doces e embrulhos no estômago me tomam por completo e me fazem em paradoxo, um ser cada vez mais resiliente, pouco previsível. Resiliência percebida apenas por fora, porque por dentro a coisa ainda é mole, morna e escorre aos litros. Em tal contradição eu me encontro, eternamente fútil e desnecessária. Sem fórmulas, previsões-perfídias, nem fugas. Apenas com paciência, dor de cotovelo no bolso e mãos na mesa. Aprendendo a ser gente e me afirmando como eterna receptora de estímulos, transformo-me em um piscar de olhos. Basta um toque de (com)paixão.
Um pouco de doce, por favor?
domingo, 17 de julho de 2011
Grito contido
"Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio ou flecha de cravos que propagam o fogo: te amo secretamente, entre a sombra e a alma (...)"
(Pablo Neruda)
Às vezes me perco buscando um lugarzinho reservado onde eu pudesse desenterrar lembranças e chorar sem que ninguém visse. Porque todos nós procuramos nos refugiar na pressão diária e nos despir das vestes que impedem a revelação mais privança. Vivemos o tempo todo mesclando palavras, nos recuando, dando sinal vermelho ao sofrer. Mas como um beco sem saída, nos deparamos com uma dor em sentido contrário: a de fora pra dentro. O coração acaba por se acostumar com essa dor aliviada com a morfina do medo, e a vontade de dizer 'te amo' simplesmente se perde entre tantas receitas que nos deram para "amortecer" tal amor. É, mas ainda assim, algo expele por minhas mãos e escorre em minha face, a qual não me deixa mentir. Essa face é a que todos olham, mas não enxergam: é a janela escancarada da alma que grita. Janela aberta, que não entra ar, apenas chuva - lágrimas.
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