Mostrando postagens com marcador envelopes guardados. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador envelopes guardados. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

D'Alva, a Estrela da Manhã

Os livros ainda parecem esperar os seus olhos que percorriam as linhas grifadas na leitura matinal. O sofá na sala espia sua volta. Os lugares vazios da cozinha dão espaço à sua ausência pesada, repentina, quase sem jeito, desacostumada. A viagem é demasiada longa para quem a teme daqui, amargamente incerta, mas tão correta a ponto de ferir quem aguarda desde o abraço apertado nos dias festivos; o acerto da previsão de chuva para o dia que pareceria limpo até o fim; as risadas roucas do seu comportamento de mulher guerreira, até o bater de panelas do almoço feito às pressas; as críticas severas rogadas pelo sufoco desesperado do silêncio; a sinceridade borbulhando no bule em suas mãos, engelhadas pelos anos difíceis da década de 40. São estes alguns detalhes que fazem um enorme buraco no cotidiano mal adaptado com a sua partida. Pois é, vovó. Sinto essa falta me assobiando aos ouvidos todos os dias que me levanto e te procuro, mesmo sabendo que a senhora não estará mais em lugar algum nesta casa. É involuntário, afinal, até sabemos como ensinar a vida, sempre evidenciada, lembrada, mas infelizmente não aprendemos sobre a morte por insistência em esquecê-la, ou por medo, quem sabe. No entanto, ainda te procuro porque sei que é nesta busca que encontrarei o lugar certo para a estadia da sua lembrança. Não nos livros, nem na sala, nem na cozinha, porém viva e resplandescente no meu coração, que abomina a ideia do nunca mais. Porque querer a presença física não anulará o seu espírito alegre dos meus gestos diários, nem a espera doce do nosso reencontro em cada memória repartida. 

A estrela D'Alva brilha sempre mais forte no meu céu coberto de saudades. Na fria manhã de terça, a estrela que só é visível da superfície da Terra ao amanhecer me inspira. Vovó Lindalva, minha estrela D'Alva.

Lindalva da Silva - in memoriam 


 15 de janeiro de 2013.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O homem que tem estrelas nos olhos


Eu tinha certeza de que era o meu herói. E tudo mais que me salvasse das tristezas, sofrimento e angústia por qualquer motivo. Segurar minha mão firme ao atravessar a rua, me pegar no colo com carinho, me levar para brincar, e simplesmente seguir todos os meus passos miúdos. Pois bem, eu cresci, e tudo isso passa na minha cabeça como um filme, neste dia 26 de abril. Dia importante, pois festeja o dia em que o senhor nasceu, e junto com ele, todo um exemplo de homem. Vencer na vida não foi fácil, e chegar aqui foi uma dádiva. Tenho orgulho de ser sua filha, e a certeza de que és o meu espelho, o meu sol, o meu guarda-chuva em dias ameaçadores, me abraça quando tudo parece estar perdido. Os melhores anos da minha vida foram resumidos à sua companhia marcante, e morar longe hoje significa a certeza do amor genuíno, que não se desfaz a cada quilômetro, mas aumenta no decorrer da estrada. O amor de pai, que não muda, não decepciona, apenas acalenta. Amor que proporciona um diálogo amigo, umas boas histórias pra contar, risadas pra lá de intensas; que rende música nas horas vagas, trilhando sonoramente nossas vidas para o resto dos dias. Sem falar nos conselhos, puxões de orelha e pequenas brigas com a justificativa do querer-me bem, maldito bem - certeza que hoje posso entender isso melhor. A meu grande e real melhor amigo, desejo muitas felicidades, saúde para uma vida tranquila e de paz. Que os cabelos brancos não te envelheçam a mente, mas te mantenham essa jovialidade perceptível nas curvas do seu sorriso e na expressão do seu olhar. Que o peso do tempo não te leve embora o encanto da vida e que a batalha não se dê por acabada diante das dificuldades inevitáveis. Que tudo que mais brilhe no céu, te devolva a mil anos-luz a felicidade de existir. Que o seu olhar astronômico de homem experiente em observar o universo, continue a atravessar o meu paralelamente. Pois nenhum buraco negro ou cometa ligeiro levará embora meu grande Amor.


Com muito carinho,


Sua filha Vaninha.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Doce proibido


Engoli muitos desejos por você enquanto deitava a cabeça no travesseiro de sonhos. Imaginei nós dois gastando o mundo, rasgando ventos, na beira-mar e céu azuis. Criar milhões de imagens que não saíam do meu cérebro, minúsculo pra suportar tantas quimeras, era saturá-lo de paixão proibida. E sufocar tudo isso como alguém que tenta calar a boca com a mão ligeira, querendo engolir a chave que abriria toda a fantasia de debutante tímida. Deu certo, no meu universo onde tudo tem que dar certo, mas na realidade não. E hoje não me preocupo em saber o motivo desse não, meio amargo, meio salvador. No mais, consigo até rir das nossas conversas utópicas das madrugadas às esperanças, as quais adormeciam no meio do caminho ao palpável. Nada foi completo como desejávamos, nada foi tão belo como nas palavras, como no silêncio do beijo intenso de feriado. As entrelinhas disseram muito mais, juntas ao não-saber compositor de uma história de poucos capítulos, gostosa de ser lida, mesmo depois de algumas primaveras. Teu jeito largado me fez enxergar o homem mais culto do mundo, teu vocabulário desafiou minhas aulas de português, teu sorriso me lembrava sempre uma criança que acaba de ganhar chocolate. E sem perceber, você deixou minhas palavras incoerentes, transformou minha razão em risco, e me soltou no labirinto das emoções para que me perdesse e não voltasse tão cedo. Estar te escrevendo agora é sinal de que consegui voltar sim, pois se você não tinha essa intenção, eu tinha. Sacudi a poeira que você me depositou, o vendaval finalmente foi embora. Depois do desalinhamento causado por esse vento contrário, meu mundo voltou a girar dentro do tempo que voa pra melhor. E se me lembro de você é só assim, como um tropeço nas antigas paixões. Talvez um amor fora de época... Melhor do que ter prendido a respiração ontem, é expirar naturalmente hoje. Melhor do que relembrar com a cabeça, é esquecer com o coração.
"Aos olhos dele
Não acredito em nada. 
As minhas crenças voaram 
Como voa a pomba mansa
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança."

(Florbela Espanca)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Distância amarga


A  distância ajuda e nos faz chegar enxergar o que realmente vale: nossa essência. Quando perto do que acreditamos ser nosso outro Eu, muitas vezes nos tornamos cegos por mero encantamento, ou pior, cegos por não querermos ver. Então a gente corre, se distancia e vê as coisas duras, como elas realmente são. Dói e é ruim, mas é extremamente necessário. Então assim, fiz com você. Dobrei algumas ruas, subi no alto do edifício, localizei sua casa. Avistei carros, barulho de motos e pessoas a caminhar logo abaixo. Mas não vi você. Falsifiquei a realidade por alguns instantes. Era meu modo de fantasiar a rispidez que dá gargalhadas da minha cara boba. Esperei a senhora verdade me puxar com força e me fazer tocar ao chão, mesmo que no alto. Ela veio. Acho que finalmente consegui ver o que não queria, o azedo que acabamos nos tornando. Coração que não palpita mais, a troco de umas sinceridades fora de hora. A troco de um sentimento pela metade, ou quem sabe, da ausência dele. Seria tudo invenção em meio ao passatempo que é a vida ou o enfeite mal arrumado de um pensamento que já divagou? Não sei. Só sei que de longe tudo é meio amargo. Quando perto, é doce. Doce que me enjoa, mas me impede de empurrar o prato e dizer: 


Não quero mais.

domingo, 23 de outubro de 2011

Foi para ti


Eu continuei aqui, junto a mim, quilômetros de distância de ti. Não pude mais enxergar o velho inferno dormente que me fazia adormecer por cima do teu colo, por horas consecutivas. As palavras eram belas e articuladas pra um nada, um espaço que só eu podia preencher em mim. Porque sempre me ensinam a não me jogar de cara, a deixar de me arranhar em paredes velhas e daí, rememoro os dias cheio de anestesia que você insistentemente me aplicava. Fosse como uma estratégia de agarramento de uma eternidade mentirosa, ou por mera inteligência que me dispunha atualmente. Mas não quero invadir seu hoje, em busca de respostas de ontem. Um ontem solitário que me faz fechar quase completamente os olhos para uma visão mais nítida. Aceitei por fim, que dessa nitidez eu não preciso, até porque meus óculos estão guardados na caixa, e meu coração, na contracaixa.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Narrando


Engolindo verbos dicendi¹, e me entupindo de neologismos² desgastados, me farto da narrativa existencial. Sem discursos diretos, só citações indiretas. Eu faço um indireto livre pra você, invado seu pensamento e você nem sonha. Crio um personagem perto-longe, fatos fatigados, lugares imaginários, tempos pretéritos. Espaço só se for dentro de mim. Fora só há as consequências deixadas por ti. Opto por continuar nessa eterna elocução³, narração do nosso 
enredo. Coube a nós, amor, apenas lê-lo.






¹Verbos "do dizer" como falar, afirmar, responder...
²Palavra nova, ou nova acepção de uma palavra já existente na língua.
³Introdução de um discurso