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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pensamento colorido

O ritmo do samba antigo me faz sentir saudade do que nunca vivi, reticenciando uma melodia no ouvido que desemboca no lado oculto do meu ser. É arriscado forçar alguma situação, quebrar o elo invisível que se constrói com o pouco que se viveu, apenas para comprovar o que o sonho enfeita nas noites longas. Ouso dizer imoral a tentativa de compreender o caminho ponteado por uma pureza inexplicável do mistério que a gente encontra para enlaçar o óbvio. Porque enigmaticamente a ausência de toques me leva a lugares desconhecidos, me leva a um passo do amor inventado em pleno carnaval, a mil pés da realidade crua. Porque a concretude do mundo sempre abre muitas portas para a abstração que ele abriga pelo não transparecer. Ou não transformar para aparecer? O vazio do ambiente, o choro abafado, o silêncio ensurdecedor, os olhares famintos, as palavras nas entrelinhas, os sentidos lá fora, a fumaça tragada e solta pelo ar do desejo. E é ainda mais misteriosa a ponte que se cria entre o meu pensamento e o fato, tão distantes quanto à insana necessidade de dar gás às tolices esvoaçantes, de alimentar os meus exageros discretos, de enfartar os afetos, remendando (des)pedaços das minhas imaginações bordadas. Pois é mais convincente dizer que tudo tem acontecido nesse silêncio profundo que a gente acaba se afogando, querendo sair vivo e morrendo por não viver. Porque as vontades se concretizam mesmo nessa lacuna que a gente insiste em chamar de pensamento, se alongando em uma forma, num sentido, numa cor, feito arco-íris, digno do encantamento que traz aos olhos de quem o risca com os dedos apontados para o céu, quando lá mesmo ele se desfaz. E talvez seja só isso: o belo que se busca aos tropeços em contraste com a realidade escorregadia. Sensata, mas deixando muito a desejar para a minha mente ritmada pelo samba de raiz, o mesmo que me transporta para um passado jamais experimentado, talvez para as minhas raízes imaginárias.

Silvanna Oliveira


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sweet november

Todos saturam os meses que passam no ciclo corriqueiro dos dias. Jogam em cima deles todas as fantasias, castelos e expectativas, ansiando pra a resolução dos problemas como se fossem fórmulas matemáticas: você me traz as respostas e eu paro de perguntar. No mais, quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas¹. Desistem e se entregam ao novo que chega, perfumando um bem-vindo na porta de casa ao sair, e começando o primeiro dia do mês com o pé direito. Patuás contra todo o mal que possa incidir em menos de trinta dias. Parece que a vida não continua, mas vive pausando para novas demolições do forte construído há pouquíssimas datas. Então novembro chegou e com ele todas as esperanças de um novo amor, um novo emprego, de novos projetos pra o ano que se aproxima. Que tal uma faxina emocional? Pois é. Outubro meio amargo se esvaiu entre as prévias destruídas pelo trator da desilusão e descarregou sobre as cabeças passivas uma nova dose de fé para aquilo que não se põe a mão. Nada além de esperar pelo super poder do tempo, o herói contra os males que nunca chega. Esperar e não fazer. Esperar e quebrar a cara. Mais uma vez. Por que um pacote de dias e não nós mesmos? Até quando iremos nos submeter a uma fração de segundos corridos para mudanças radicais se não for aqui, agora? Não... continuamos a optar pelo castelo de areia que o vento leva sem que nós percebamos e nos afogamos no mar de hoje e sempre. Isso também cansa porque a vida não é cronológica, mas é muito mais emocional, intensa, psicológica do que parece ser. A quantidade de aniversários celebrados não se comparam a maturidade adquirida e os presentes não devem ser entregues somente em datas especiais. A vida é redomoinho, contradição, surpresa. Flores se mandam depois de uma noite maravilhosa, convites se fazem num encontro casual, sorrisos são sempre bem-vindos. Dias não devem ser multiplicados e sim somados, cheios de energia positiva, pois assim a coisa anda melhor. A vida não é somente demarcação temporal e nem poeira para se varrer com alergia. O tempo sem datas é muito mais profundo e delicioso, despido de perseveranças que não se renovam. É muito mais que meras lamentações de um mês que não disse sim ao seu desejo. A vida e o tempo não estacionam, mas continuam. Basta ir vivendo para passar e não, passando para viver.




¹Veríssimo 
 

domingo, 2 de outubro de 2011

Pensar para viver


Eu gosto e sempre paro pra pensar no mistério da vida. Às vezes pareço boba, ingênua, idealista. Ao mesmo tempo pareço ferrenha, realista, pés sobre o chão demais. Mas pensar nela já faz parte do minha coleção de incógnitas. Vez em quando, acordo amando o canto dos passarinhos que abrem meu dia, me abobalho olhando pro céu, encho o olho de lágrimas ao ver o sol se pôr e ao nascer também (isso parece tolo, mas é verdade). Me pego sentindo a brisa e fechando os olhos, reparo numa folha caindo no caminho da faculdade, em um animalzinho que passa por mim. Sou fascinada pela natureza, tenho paixão por tudo que vem dela. Nessas pequenas coisas, vejo o quanto a vida é bela, é importante, misteriosa e boa. Não acho que seja curta num sentido vago como dizem por aí. Depende de como você aproveita ou não seu tempo. Sendo bem vivida, poderá até ser curta, mas bem aproveitada o será também. Se muito longa, pode ser exaustiva. Tudo está de acordo com o referencial e a maneira como se encara esse presente.


De repente, me flagro triste pensando nessa mesma beleza a qual descrevi. Não sei ao certo o porquê de eu tanto me preocupar e de achar que não vivi tudo que gostaria, mas bate um medo dessa coisa às vezes. Também a acho cruel, e de fato ela é. Arrancar quem nós amamos sem nenhuma explicação sequer é o que mais me intriga. Sem falar nas doenças, na pobreza, na desigualdade, na loucura, na crueldade e suicidas. Temos ene motivos pra temer a esta despida tão dual. Mas como já dizia o Toquinho, a vida sempre tem razão. Só sei que é preciso paixão... E é mesmo. Até o dia de hoje, eu a levo de forma tranquila tentando sempre olhar seu lado colorido, pois se for apenas partir de um ângulo pessimista, provavelmente já me teria me jogado do décimo. Não julgo quem é pessimista, diga-se de passagem. Cada um tem seus motivos, sua história e nisso, ninguém poderá intervir.


A vida deixa marcas e disponibiliza também momentos difíceis. Aceitar isso não dá, pelo menos pra mim. Quem sabe engolir a força. Tenho sempre a impressão de que tudo deveria andar conforme o desejo de todos, e que as coisas vis não deveriam existir simplesmente. Parece que não só eu, mas todo mundo tem um pouco dessa ideia de que coisas ruins são apenas coisas ruins. Falar de aprendizado é meio que inútil pra quem já sofreu abalos sísmicos de existência. Mas ele existe, sabemos.


A vida é meio que o desafio de sempre tirar o coelho da cartola; e não só de tirar, mas de saber tirar. A vida é a coisa misteriosa mais bela e rude que já vi. A coisa mais linda e vulgar. Existe pra quem quer e quem não quer. Pra quem acha que entende e também pra quem não entende. Ela está aí pra quem sabe viver; se é essa mesmo a fórmula de não tirar ninguém de uma obrigação a vir escrever isso.


A vida nada mais é do que uma busca incessante, uma felicidade intercalada - que os otimistas concordem comigo. Para os pessimistas, um tédio intercalado. E para os neutros, um composto de momentos.


Mas uma coisa é certo: no dia que alguém entender a vida, parará de viver. Pois o enigma é o que nos prende no agora, no aqui. As surpresas são o que nos encanta e o que nos desencanta num piscar de olhos. Essa sede por respostas, só faz com que cada vez mais ela venha e mude as perguntas.


Perdas e ganhos são seu segredo. Mistério é seu segundo nome. Viver, seu verbo mais cabível.


Para que vivamos...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Fim do túnel


Sempre tem uma saída, uma luz no fim do túnel. O túnel do tempo e da vida. 


Hoje eu fui na correria, fiz arte, dei aula. Transformei meu tempo em aprendizado e vi olhos atentos, outros nem tanto. Talvez fosse muita pretensão minha querer que todos olhassem hipnotizados para a minha figura que se veste de professora, ali na frente no quadro. Barulhos de sons e carros vindo das enormes janelas, ao lado dos poucos alunos. Não sei de onde tirei magia, poesia, mas por uns instantes me senti feliz e realizada ali, onde os poucos continuavam a prestar atenção em minha leitura labial e minha voz mais pra grossa do que pra fina. Fina só quando monitoro. Mas subitamente, uma agonia, uma vontade de jogar tudo pro alto e sair correndo. Vozes, carros e vento juntos, fazendo barulho e conseguindo superar a luz dos olhos atenciosos, tomando o espaço por baderna. Estresse, falta de fôlego, vontade de renunciar minha paixão, abrir mão do que escolhi. Nessa passagem de duas ondas, uma tranquilizadora e acolhedora e outra forte e destruidora, permaneci na linha tênue. Consegui estabilizar um pouco a situação, e fiquei sem mais nem menos dividida entre ser a professora cansada e o ser humano intimamente feliz. Digo aqui que nem tudo que se desabafa em um blog pode ser drástico demais, ou feliz demais. Agora não, hoje não. Descansei na corda bamba e bipolar que me segurou. Então saí à rua movimentada, tropecei com duas amigas queridas, daquelas antigas que a gente carrega no peito. Daí tomei meu caminho para casa e vim pensando no que seria de mim sem meus altos e baixos, hoje particularmente, tão próximos e suaves. Pensei na continuação apesar de tudo que me acontece e na linha reta que me levaria ao meu conforto. Porque a gente sempre cansa de reclamar de bobagens e aspirar por perfeições sublimes em situações tão curvilíneas. Começamos a perceber que aquela luz no fim de túnel, aquela flor no asfalto podem estar nessa face dupla que é o despertar pra existência. Despertar esse que pode se dar em uma crônica simples ou numa sala de aula desatenta.


Doce dualidade que me carrega.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O vendedor de água

Recebendo boas inspirações de Fernando Sabino, Rubem Braga, além das belíssimas crônicas de Cecília Meireles venho aqui de forma espontânea e ao mesmo tempo articulada pôr em prática o que ando ensinando. Se eu disse que isso era livre e pessoal, sinto-me à vontade para desfrutar do meu mix lírico e reflexivo. Este espaço me permite. Certo dia, eu estava a caminhar sem grandes expectativas de encontrar uma roupa legal nas lojas lotadas, nem muito menos com uma alegria estampada na minha face sonolenta. Não preciso de muita subjetividade para dizer que simplesmente eu estava me sentindo triste, inútil. Pensei por um instante que teria sido aquela uma maldita hora para camuflar a tristeza no centro da cidade, caótico de uma sexta-feira, em plena Maciel Pinheiro. Eu estava enganada. Resolvi desistir dos meus passos e repassei todo o mal-estar emocional pro meu corpo que só sentia tremidas constantes nas pernas e uma fraqueza meio inexplicável. Suspeitei de uma virose. Não era virose, mas sim aquela coisa que chamam de sentimento mesmo. Então sentei-me num banco e observei meticulosamente os passos apressados das pessoas que desfilavam à minha frente. Gente que tem cara de relógio, trabalho e emoções tão bem engravatadas que era quase impossível decifrá-las. Só que as minhas emoções frágeis eram muito aparentes, e ninguém enxergava. Ecoei em silêncio Por quê? A resposta só obtive uns dias depois, a qual formulo com uma das passagens do livro O Pequeno Príncipe: Só se vê bem com o coração: o essencial é invisível aos olhos. Isso é o clichê virtual mais verdade de todos. Pelo menos para mim que vivo no meu inventado B-612, válvula da realidade atroz. No entanto, passei mais de uma hora sentindo o sol insistente em queimar minha cabeça e junto com ele, eu insistia discreta por um olhar de misericórdia, de amor, de bem, de algo que melhorasse meu dia ensolarado, mas tão nublado. Continuaram todos a me ver, ninguém a me enxergar. Desisti, entreguei as cartas, perdi o jogo na tentativa sufocante de acertar seres humanos errantes. Eles não me acertaram, eu me errei. Fui embora dali, tentando passar uma borracha nos pensamentos turvos que me atordoavam cada vez mais que olhava os pés ligeiros. De repente, um homem. Inusitado, comum, olhar perseverante, suor de trabalho traduzido pelos seus gritos, levando uma caixa na cabeça - devia ter água lá dentro. E tinha. Ele era o vendedor de garrafas e copos de água. Sem nenhum estímulo para bebê-la, mas sentindo uma mistura de caridade e uma sede inventada, bateu uma vontade repentina inquieta de comprar o copinho com as moedas guardadas no bolso. Eu iria ajudá-lo com o seu ganha-pão e eu ia me sentir mais humana, ou melhor, mais divina porque de humana eu já estava farta. Porém, algo me esbarrou: um orgulho, uma vergonha, uma preguiça, não sei. Não fui, apenas o observei a poucos metros de mim, de costas, fatigado pelo sol e pelas pessoas que desapareciam rapidamente aos seus olhos cansados. Aos meus, eu já tinha entregue os pontos. Virei-me e ao esperar que pelo menos os carros tivessem prudência e me deixassem passar, alguém pega no meu ombro e diz: "Jovem?" Com a mesma cara sem graça, respondi um "oi" azedo. Era aquele homem, o mesmo que estava a gritar perto de mim "A água é 1 real!" Ele prosseguiu: "Olha menina, Deus tem grandes planos na tua vida tá? Basta crer! Amém?" e sem que eu tivesse direito de resposta, ele se foi dentre os milhares de semblantes súbitos. Não tive chance de pensar que fosse uma estratégia para a compra de água, ou mais um fanático religioso na tentativa de me converter. Pra mim, aquele momento foi muito mais do que qualquer suposição. Foi singular, estranho, bonito, rico, simbólico. Mesmo não sendo religiosa, buscando poucas vezes "as coisas de Deus" e tendo uma concepção particular desta crença que circula o mundo com infinitas interpretações, esse homem me veio como uma luz que fez com que eu me sentisse importante e enxergada com os olhos do coração. Porque dentre tantas pessoas ali, seria justo eu a escolhida para o depósito de uma palavra de paz? Não sei. Mas querer entender tudo é querer saber demais. Eu não quero. Lembro-me então de que as melhores coisas da vida são quase indefiníveis, pouco compreendidas, e mais silenciadas para serem sentidas com a alma. Porém, coisas tão doces quanto as palavras daquele vendedor de água.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Liberté


Não vou mais à nocaute, nem cometo gestos compulsivos. Mantenho a cabeça no equilíbrio e abraço a tão desejada liberdade. Hoje até prefiro que as coisas pousem na minha mão, em vez de eu ter que ir buscá-las meio que "forçadamente". Porque nem tudo se requisita e se tem. Importância, admiração, amor e presença são uma parte desse tudo. Estes devem se dar por livre e espontânea vontade, fruto da conquista, e não do imediatismo barato. Opto então por deixar de lado o caos do querer, somado ao impulso, e me preservar no meu silêncio abafado por uma redoma. Não o silêncio por dor absurda, mas o silêncio voluntário de discrição que a vida me implorou. Cansei de agitar as palavras e adiantar a natureza; de querer dar dois passos à frente, quando só se pode um.  
A natureza, amiga da liberdade, abriu-me os olhos para o que de fato fosse meu, mesmo que temporariamente - sem ilusões de finais felizes. Nada de propriedades, obsessões e insanidade travestida de amor. E apesar de adotar essa forma de encarar as situações, não costumo ser hipócrita a ponto de negar falhas comuns de um ser humano. Ainda desejo só pra mim, cometo exigências banais e sou egoísta, sim. Mas existe uma razão que vem até minha porta, toca na campainha e não vai embora. 
Passei a acreditar mais em "amor livre" e agarrei isso com unhas e dentes. Talvez porque as melhores coisas que me aconteceram, foram dentro da ciranda da liberdade. Só liguei quando quis, só fui procurada quando a falta se pronunciou; só amei quando tive espaço, só fui amada quando dei folga a sorte. Uma coisa mais crua, mais independente, mais genuína. Com a minha presença, dei o direito de querer; se esteve ao meu lado, foi porque sentiu. Minha importância só na base da conquista, nada de solicitações esmolentas e rápidas - quem sabe numa hora de carência, servissem. Admiração só por mérito e sem marketing pessoal, por favor. Abaixo os enaltecimentos precoces! 
Talvez porque o mundo conquistou a liberdade de expressão, mas não a de sentimentos. Talvez porque eu queira mais originalidade no sentir.
Decido por fim, prosseguir em paz, passando por cima de dúvidas corriqueiras e adorando uma liberdade infinita. Cheia de borboletas que possuem querer, voando num céu que não tem volta. 
Perco-me com minhas asas incessantes.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Miauês

Não sei se por mera falta do que fazer, ou se por mais cautela na observação de pequenas coisas, notei o comportamento da gatinha vira-lata que peguei pra cuidar temporariamente. Ela como filhote, se porta como sapeca e mega-energética. De alguma forma, percebi uma relação quase que direta com a nossa própria vida, enquanto criança. Você já parou pra pensar o quanto sua vida mudou e aquela criança que sorria com os olhos, esvaiu-se para algum lugar no espaço?
Essa gatinha se distrai com coisas óbvias, que passam despercebidas aos olhos humanos apressados, e eu bem que desejaria uma distração como a dela: brincar com uma bolinha, rolar no chão se medo de me sujar, chegar mais perto das plantas e tentar conversar com elas - em miauês. Ser mais livre das regras e inocentemente acreditar nas pessoas. Ganhar a confiança de um dono e não se decepcionar se ele não estiver a fim de trebelhar. Queria ser essa gatinha que conhece um pouco de tudo, sobe nos objetos, cai e se levanta numa tamanha facilidade. Queria sim, ser essa gatinha mais independente, que toma leite como se fosse o último de sua vida, e come sua ração como se fosse caviar.
Queria existir em mim mesma, essa criança perdida e emudecida com o tempo, com a carapuça que resolveram me encobrir. Queria voltar a sorrir com um rasgar de papel, queria pintar uma casa com um sol sem me importar em borrar as cores. Queria lamber a tampinha do danone na frente de todo mundo, e abraçar as pessoas com um pulo dado a distância. Porque essas são práticas que somem com o passar do tempo, fazendo-nos esquecer de nos doar com mais calor, com mais confiança, mais inocência, mais tolerância. 
Frutos de uma geração descartável, desertamo-nos de nos envolver por um sentimento puro (se é que ele existe), e muitas vezes estamos com alguém por total conveniência, somente em seu tempo útil. Dar valor aos mais desnudados sentimentos? Ah, isso é tão demodê. Todo mundo agora é de todo mundo. Mas eu adoraria saber onde está velha criança que se prevalece num olhar afetuoso; onde se escondeu o adulto que sorri com sinceridade; e em que beco o animalzinho maltrapilho se refugiou. 
Morrendo de inveja da gatinha serelepe que sobe no meu colo sem medo de cair, e que tem um instinto de eterna criancisse, eu vos digo: queria ser como ela. Uma criança inabalável.


Com um lado infantil mais vivo que nunca;
E um adulto quase imortal. 


Essa é a Lara rsrsrs