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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Fim do túnel


Sempre tem uma saída, uma luz no fim do túnel. O túnel do tempo e da vida. 


Hoje eu fui na correria, fiz arte, dei aula. Transformei meu tempo em aprendizado e vi olhos atentos, outros nem tanto. Talvez fosse muita pretensão minha querer que todos olhassem hipnotizados para a minha figura que se veste de professora, ali na frente no quadro. Barulhos de sons e carros vindo das enormes janelas, ao lado dos poucos alunos. Não sei de onde tirei magia, poesia, mas por uns instantes me senti feliz e realizada ali, onde os poucos continuavam a prestar atenção em minha leitura labial e minha voz mais pra grossa do que pra fina. Fina só quando monitoro. Mas subitamente, uma agonia, uma vontade de jogar tudo pro alto e sair correndo. Vozes, carros e vento juntos, fazendo barulho e conseguindo superar a luz dos olhos atenciosos, tomando o espaço por baderna. Estresse, falta de fôlego, vontade de renunciar minha paixão, abrir mão do que escolhi. Nessa passagem de duas ondas, uma tranquilizadora e acolhedora e outra forte e destruidora, permaneci na linha tênue. Consegui estabilizar um pouco a situação, e fiquei sem mais nem menos dividida entre ser a professora cansada e o ser humano intimamente feliz. Digo aqui que nem tudo que se desabafa em um blog pode ser drástico demais, ou feliz demais. Agora não, hoje não. Descansei na corda bamba e bipolar que me segurou. Então saí à rua movimentada, tropecei com duas amigas queridas, daquelas antigas que a gente carrega no peito. Daí tomei meu caminho para casa e vim pensando no que seria de mim sem meus altos e baixos, hoje particularmente, tão próximos e suaves. Pensei na continuação apesar de tudo que me acontece e na linha reta que me levaria ao meu conforto. Porque a gente sempre cansa de reclamar de bobagens e aspirar por perfeições sublimes em situações tão curvilíneas. Começamos a perceber que aquela luz no fim de túnel, aquela flor no asfalto podem estar nessa face dupla que é o despertar pra existência. Despertar esse que pode se dar em uma crônica simples ou numa sala de aula desatenta.


Doce dualidade que me carrega.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O vendedor de água

Recebendo boas inspirações de Fernando Sabino, Rubem Braga, além das belíssimas crônicas de Cecília Meireles venho aqui de forma espontânea e ao mesmo tempo articulada pôr em prática o que ando ensinando. Se eu disse que isso era livre e pessoal, sinto-me à vontade para desfrutar do meu mix lírico e reflexivo. Este espaço me permite. Certo dia, eu estava a caminhar sem grandes expectativas de encontrar uma roupa legal nas lojas lotadas, nem muito menos com uma alegria estampada na minha face sonolenta. Não preciso de muita subjetividade para dizer que simplesmente eu estava me sentindo triste, inútil. Pensei por um instante que teria sido aquela uma maldita hora para camuflar a tristeza no centro da cidade, caótico de uma sexta-feira, em plena Maciel Pinheiro. Eu estava enganada. Resolvi desistir dos meus passos e repassei todo o mal-estar emocional pro meu corpo que só sentia tremidas constantes nas pernas e uma fraqueza meio inexplicável. Suspeitei de uma virose. Não era virose, mas sim aquela coisa que chamam de sentimento mesmo. Então sentei-me num banco e observei meticulosamente os passos apressados das pessoas que desfilavam à minha frente. Gente que tem cara de relógio, trabalho e emoções tão bem engravatadas que era quase impossível decifrá-las. Só que as minhas emoções frágeis eram muito aparentes, e ninguém enxergava. Ecoei em silêncio Por quê? A resposta só obtive uns dias depois, a qual formulo com uma das passagens do livro O Pequeno Príncipe: Só se vê bem com o coração: o essencial é invisível aos olhos. Isso é o clichê virtual mais verdade de todos. Pelo menos para mim que vivo no meu inventado B-612, válvula da realidade atroz. No entanto, passei mais de uma hora sentindo o sol insistente em queimar minha cabeça e junto com ele, eu insistia discreta por um olhar de misericórdia, de amor, de bem, de algo que melhorasse meu dia ensolarado, mas tão nublado. Continuaram todos a me ver, ninguém a me enxergar. Desisti, entreguei as cartas, perdi o jogo na tentativa sufocante de acertar seres humanos errantes. Eles não me acertaram, eu me errei. Fui embora dali, tentando passar uma borracha nos pensamentos turvos que me atordoavam cada vez mais que olhava os pés ligeiros. De repente, um homem. Inusitado, comum, olhar perseverante, suor de trabalho traduzido pelos seus gritos, levando uma caixa na cabeça - devia ter água lá dentro. E tinha. Ele era o vendedor de garrafas e copos de água. Sem nenhum estímulo para bebê-la, mas sentindo uma mistura de caridade e uma sede inventada, bateu uma vontade repentina inquieta de comprar o copinho com as moedas guardadas no bolso. Eu iria ajudá-lo com o seu ganha-pão e eu ia me sentir mais humana, ou melhor, mais divina porque de humana eu já estava farta. Porém, algo me esbarrou: um orgulho, uma vergonha, uma preguiça, não sei. Não fui, apenas o observei a poucos metros de mim, de costas, fatigado pelo sol e pelas pessoas que desapareciam rapidamente aos seus olhos cansados. Aos meus, eu já tinha entregue os pontos. Virei-me e ao esperar que pelo menos os carros tivessem prudência e me deixassem passar, alguém pega no meu ombro e diz: "Jovem?" Com a mesma cara sem graça, respondi um "oi" azedo. Era aquele homem, o mesmo que estava a gritar perto de mim "A água é 1 real!" Ele prosseguiu: "Olha menina, Deus tem grandes planos na tua vida tá? Basta crer! Amém?" e sem que eu tivesse direito de resposta, ele se foi dentre os milhares de semblantes súbitos. Não tive chance de pensar que fosse uma estratégia para a compra de água, ou mais um fanático religioso na tentativa de me converter. Pra mim, aquele momento foi muito mais do que qualquer suposição. Foi singular, estranho, bonito, rico, simbólico. Mesmo não sendo religiosa, buscando poucas vezes "as coisas de Deus" e tendo uma concepção particular desta crença que circula o mundo com infinitas interpretações, esse homem me veio como uma luz que fez com que eu me sentisse importante e enxergada com os olhos do coração. Porque dentre tantas pessoas ali, seria justo eu a escolhida para o depósito de uma palavra de paz? Não sei. Mas querer entender tudo é querer saber demais. Eu não quero. Lembro-me então de que as melhores coisas da vida são quase indefiníveis, pouco compreendidas, e mais silenciadas para serem sentidas com a alma. Porém, coisas tão doces quanto as palavras daquele vendedor de água.