domingo, 23 de outubro de 2011
Foi para ti
O mundo é bão Sebastião
Me sinto um bichinho que escapou da mata e foi parar na estrada, onde nada tem a ver, nada cabe a existência, tudo é nonsense. Sim, é assim que me sinto no lugar que me jogaram pra nascer. As pessoas me assustam e o asfalto confirma meu tédio. O coração de pedra, a alma como um arranha-céu, me sinto pequena, inútil. Aquilo a que suspiro toda hora não me alcança, pois o que vejo é tão concreto a ponto de me furar. Os sentimentos verdadeiros caíram por terra e eu me perdi na cidade grande, de pessoas grandes, mas de corações pequenos. Cheias de títulos, cheias de razão, sem amor. Mas quem me manda querer ser grande e ter coração maior ainda? Talvez isso seja uma espécie de deficiência sentimental. Meu amor não tem crédito, e por isso o guardo na bolsa ensaiando pelo momento de poder entregá-lo. Me disseram que isso não é amor, isso é qualquer coisa lá que não se deve dar a ninguém, pois quem há de merecer? E eu insistentemente acredito em seu poder e o deixo envolto pelo quartzo branco que minha mãe me deu, na tentativa frustrante de conservá-lo. Permaneço a driblar as ciladas que a gente grande me faz cair toda hora, e que eu ingenuamente reajo com dor. Que bobagem! Eu sambo também pois nunca é tão tarde para se passar tempo num mundo-casa. Nem tudo pode assim cruel, moça. Aqui também tem alegria enquanto se aprende a conviver com essa gente, mesmo não sendo igual a ela. Porque as coisas boas e puras ainda existem mesmo que tão invisíveis e poucas entre o rachar do asfalto quente de todo dia. O que falta são os praticantes. Será? Sim, já foi. Prefiro pensar assim, a ter que me afogar numa bebida de um bar qualquer e camuflar minha angústia. Resmungar da vida não faz meu gênero, mesmo sendo bombardeada com o viver dos outros - conviver, nada fácil. O que desejo, nunca terei. Então os sentimentos se reúnem e combinam para serem autossuficientes me invadindo numa ciranda, por muito tempo. A força deles é meu motor.
Mas alguém há de acordar e me surpreender?
Cuidado, isso não é muito de se esperar, pois o mundo ensina a esperteza, mas não traz a sabedoria. O mundo ensina a mentir, mas não a esconde a verdade. O mundo oferece os cargos, mas não te livra de virar pó.
O mundo é bão Sebastião¹, mas não ensina a amar.
¹Música de Nando Reis
Mas alguém há de acordar e me surpreender?
Cuidado, isso não é muito de se esperar, pois o mundo ensina a esperteza, mas não traz a sabedoria. O mundo ensina a mentir, mas não a esconde a verdade. O mundo oferece os cargos, mas não te livra de virar pó.
O mundo é bão Sebastião¹, mas não ensina a amar.
¹Música de Nando Reis
sábado, 22 de outubro de 2011
Versus
O amor que inventei por você. Mas que não passa de um ódio provisório.
Nada é permanente.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Astro-não-mia
Não sei se pelo meu pai ou pela minha infância recheada de historinhas do firmamento, sempre fui observadora assídua do que via acima de mim: o céu. Lá era onde meus sonhos pousavam e me olhavam brilhando por intermédio das estrelinhas. Eu também acreditei que fosse criar verrugas se apontasse... que bobagem! Toda minha infantilidade está conectada ao espaço sideral e no que nele eu imaginava ser. Criava tanta coisa, que me perdia nas nuvens de imaginação, enquanto meu pai insistia em me explicar o escorpião formado pelas estrelinhas e o cinturão de Órion. Sem fala nas três marias, do vermelho de Mercúrio e na pequenez de Plutão.
Tive o imenso regozijo de observar de um telescópio os anéis de Saturno e as crateras da nossa amiga Lua. Não para o que escolhi pra seguir profissionalmente, mas dentro de mim sei que tem um pouco de astronomia. Minha relação com os planetas que eu teimava em enxergar sempre foi de real cumplicidade. Hoje em dia, poucas vezes me transporto pra o imenso universo estelar. Esses dias mesmo parei, sentei e fiquei abismada assistindo ao espetáculo da presenteada noite - mas que meus dias deram pra embaçar - imaginando que cada coisinha que brilhava era como uma pessoa, mortais com cara de infinitas. E pra quem não sabe, as estrelas e o sol (como a maior delas) também morrem. Desejei ainda querer ir pra lá quando partisse de vez, pois assim poderia observar a todos aqui embaixo e esperar àqueles que amo, cintilando para dizer da tamanha saudade.
Talvez genético, mas meu irmão também gosta do céu. Ele quer voar, ser piloto, mas poucos acreditam que um dia será. Infelizmente há pessoas que não acreditam nas estrelas; preferem os terrestres que se afundam na terra. E eu ainda opto por caminhar olhando pra cima. Falando assim, me recordo o quão é revitalizante viajar de avião, pois sentindo-me mais perto daquilo que o homem não põe as mãos, não me permito parar de olhar através da janelinha. Como uma mosca tentando se adaptar a um universo especialmente divino, de que ela parece não fazer parte. Penso que é tão maravilhoso poder fazer parte, mesmo que pequena, dessa vastidão.
Quando criança, vi alguns objetos estranhos no céu estrelado de uma noite dos namorados. Era um disco voador, creio eu. Ele só me apareceu uma vez e me deixou a imagem gravada para todo o sempre. Foi rápido como algumas coisas que acontecem na vida, daquelas subitamente marcantes. Também vi estrelas cadentes como dizem no popular. Na verdade, são os meteoros, meteoritos, cometas... mas que pra mim é tudo estrela cadente. A historinha do pedido ainda é válida, pois se hoje eu vejo uma, imediatamente corro pra fazer o meu, por mais que a estrelinha não realize meu desejo - já virou ritual.
Não sei ao certo o que me induz a escrever tudo isso aqui e agora, mas olhando pro céu, percebo que lá continuam meus sonhos de criança a flutuar nos ares limpos enfeitados por coisinhas miúdas e brilhantes. O céu é meu refúgio para pedidos, alegrias, tristezas, reflexões e acima de tudo, é minha utopia. Não consigo passar muito tempo sem me jogar no foguete e me mandar pra o espaço pra admirar as coisas belas que por lá encontro. Aqui na terra às vezes é seco e isso me cheira a rispidez. Lá é melhor, frio, úmido e excitante. Lá tem luz, diversidade, imensidão, harmonia, beleza e o mais lindo dos deuses, como diria Renato: o infinito.
Tudo que nos falta por aqui.
Quero tecer de palavras o céu de fantasias. Quero estrelinhas nas minhas entrelinhas.
"Desculpe estranho, eu voltei mais puro que o céu."
Tive o imenso regozijo de observar de um telescópio os anéis de Saturno e as crateras da nossa amiga Lua. Não para o que escolhi pra seguir profissionalmente, mas dentro de mim sei que tem um pouco de astronomia. Minha relação com os planetas que eu teimava em enxergar sempre foi de real cumplicidade. Hoje em dia, poucas vezes me transporto pra o imenso universo estelar. Esses dias mesmo parei, sentei e fiquei abismada assistindo ao espetáculo da presenteada noite - mas que meus dias deram pra embaçar - imaginando que cada coisinha que brilhava era como uma pessoa, mortais com cara de infinitas. E pra quem não sabe, as estrelas e o sol (como a maior delas) também morrem. Desejei ainda querer ir pra lá quando partisse de vez, pois assim poderia observar a todos aqui embaixo e esperar àqueles que amo, cintilando para dizer da tamanha saudade.
Talvez genético, mas meu irmão também gosta do céu. Ele quer voar, ser piloto, mas poucos acreditam que um dia será. Infelizmente há pessoas que não acreditam nas estrelas; preferem os terrestres que se afundam na terra. E eu ainda opto por caminhar olhando pra cima. Falando assim, me recordo o quão é revitalizante viajar de avião, pois sentindo-me mais perto daquilo que o homem não põe as mãos, não me permito parar de olhar através da janelinha. Como uma mosca tentando se adaptar a um universo especialmente divino, de que ela parece não fazer parte. Penso que é tão maravilhoso poder fazer parte, mesmo que pequena, dessa vastidão.
Quando criança, vi alguns objetos estranhos no céu estrelado de uma noite dos namorados. Era um disco voador, creio eu. Ele só me apareceu uma vez e me deixou a imagem gravada para todo o sempre. Foi rápido como algumas coisas que acontecem na vida, daquelas subitamente marcantes. Também vi estrelas cadentes como dizem no popular. Na verdade, são os meteoros, meteoritos, cometas... mas que pra mim é tudo estrela cadente. A historinha do pedido ainda é válida, pois se hoje eu vejo uma, imediatamente corro pra fazer o meu, por mais que a estrelinha não realize meu desejo - já virou ritual.
Não sei ao certo o que me induz a escrever tudo isso aqui e agora, mas olhando pro céu, percebo que lá continuam meus sonhos de criança a flutuar nos ares limpos enfeitados por coisinhas miúdas e brilhantes. O céu é meu refúgio para pedidos, alegrias, tristezas, reflexões e acima de tudo, é minha utopia. Não consigo passar muito tempo sem me jogar no foguete e me mandar pra o espaço pra admirar as coisas belas que por lá encontro. Aqui na terra às vezes é seco e isso me cheira a rispidez. Lá é melhor, frio, úmido e excitante. Lá tem luz, diversidade, imensidão, harmonia, beleza e o mais lindo dos deuses, como diria Renato: o infinito.
Tudo que nos falta por aqui.
Quero tecer de palavras o céu de fantasias. Quero estrelinhas nas minhas entrelinhas.
"Desculpe estranho, eu voltei mais puro que o céu."
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Desejo
Chega um momento que aquela coisa de que tudo tem sua hora começa a parecer mais perto, mais palpável. Hora em que as coisas começam a fazer sentido e o que dizem não soa tão provérbio. É aí que o coração palpita e a alma entende. As sintonias resolvem andar de mãos dadas e as coincidências (ou não) aproveitam pra chover no seu quintal. Às vezes vem como temporal e te cercam em casa somente para assisti-lo. Os gostos decidem por se encontrar na pracinha e se beijarem como apaixonados loucos. Como em um começo que sempre é bem-vindo. Bem entendido como uma fração de tempo eterna. Como uma primavera: provisória, mas que se prolonga com um olhar, um toque, uma vontade gritante. Sim... é aí que a boca treme e a mão gela porque o sangue corre pra outras esquinas para esperar a hora de entrar com tudo. O corpo fala alto, as palavras ficam mudas. O momento merece asteriscos de cintilações. O arrepio é um aviso sussurrante. Quente, frio. Bom como a estação. Uma pena é durar pouco. Avassalador e dominante.
Ainda assim, te dou a vez....
Desejo sem governo.
Ainda assim, te dou a vez....
Desejo sem governo.
Outubro
Incômodo.
Go ahead...
domingo, 2 de outubro de 2011
Pensar para viver
De repente, me flagro triste pensando nessa mesma beleza a qual descrevi. Não sei ao certo o porquê de eu tanto me preocupar e de achar que não vivi tudo que gostaria, mas bate um medo dessa coisa às vezes. Também a acho cruel, e de fato ela é. Arrancar quem nós amamos sem nenhuma explicação sequer é o que mais me intriga. Sem falar nas doenças, na pobreza, na desigualdade, na loucura, na crueldade e suicidas. Temos ene motivos pra temer a esta despida tão dual. Mas como já dizia o Toquinho, a vida sempre tem razão. Só sei que é preciso paixão... E é mesmo. Até o dia de hoje, eu a levo de forma tranquila tentando sempre olhar seu lado colorido, pois se for apenas partir de um ângulo pessimista, provavelmente já me teria me jogado do décimo. Não julgo quem é pessimista, diga-se de passagem. Cada um tem seus motivos, sua história e nisso, ninguém poderá intervir.
A vida deixa marcas e disponibiliza também momentos difíceis. Aceitar isso não dá, pelo menos pra mim. Quem sabe engolir a força. Tenho sempre a impressão de que tudo deveria andar conforme o desejo de todos, e que as coisas vis não deveriam existir simplesmente. Parece que não só eu, mas todo mundo tem um pouco dessa ideia de que coisas ruins são apenas coisas ruins. Falar de aprendizado é meio que inútil pra quem já sofreu abalos sísmicos de existência. Mas ele existe, sabemos.
A vida é meio que o desafio de sempre tirar o coelho da cartola; e não só de tirar, mas de saber tirar. A vida é a coisa misteriosa mais bela e rude que já vi. A coisa mais linda e vulgar. Existe pra quem quer e quem não quer. Pra quem acha que entende e também pra quem não entende. Ela está aí pra quem sabe viver; se é essa mesmo a fórmula de não tirar ninguém de uma obrigação a vir escrever isso.
A vida nada mais é do que uma busca incessante, uma felicidade intercalada - que os otimistas concordem comigo. Para os pessimistas, um tédio intercalado. E para os neutros, um composto de momentos.
Mas uma coisa é certo: no dia que alguém entender a vida, parará de viver. Pois o enigma é o que nos prende no agora, no aqui. As surpresas são o que nos encanta e o que nos desencanta num piscar de olhos. Essa sede por respostas, só faz com que cada vez mais ela venha e mude as perguntas.
Perdas e ganhos são seu segredo. Mistério é seu segundo nome. Viver, seu verbo mais cabível.
Para que vivamos...
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